quarta-feira, 12 de setembro de 2012

O Show de Truman ao avesso

Sabe aquele sonho romântico de fugir do cotidiano e ir para uma ilha deserta e paradisíaca com o amor da sua vida? Hoje não existe mais, e a Lagoa Azul parece um pesadelo do qual se foge. O sonho de muitos, talvez, seja participar de algum reality show em uma ilha deserta e paradisíaca. Aí sim, com vários expectadores, a vida se tornaria mais interessante, ao contrário da chatice que deve ser viver sem se mostrar aos outros.

O assunto remete ao filme “O Show de Truman”, lançado em 1998, que retrata um show televisivo baseado na vida de Truman Burbank. Desde o nascimento até a fase adulta, cada passo de Truman é filmado por milhares de câmeras escondidas, fazendo das coisas mais banais de sua vida um espetáculo assistido por milhões. O detalhe é que Truman não sabe disso – sua mulher, seus amigos, seu chefe, são todos atores que encenam papeis para o reality show.

Há, por certo, uma agonia quando se assiste ao filme. Privar alguém de sua intimidade, expor toda sua vida sem escrúpulos, colocá-lo em um mundo de atores onde tudo é falso são algumas das questões que espantam...

Mas na era das redes sociais e da intimidade exposta, quem diria, muitos invejam o papel de Truman. Trata-se de uma escolha voluntária: cada um cria o reality show da própria vida, encenando ao mundo a rotina de sua intimidade.

A necessidade de reconhecimento faz parte da constituição da personalidade humana. Queremos ser vistos, queremos pertencer a um grupo, ser aceito por quem prezamos. Nisso não há nada de anormal. Até porque a vida tem mesmo de ser compartilhada com quem amamos.

Mas não se trata disso. A devassa voluntária do cotidiano vai mais além. Os Trumans que se expõem nas redes desejam popularidade barata sacrificando a privacidade mais íntima. Não porque anseiam os quinze minutos de fama, mas porque apenas se satisfazem com a aprovação pública.

Buscando o combustível dos aplausos, das curtidas e dos comentários, tudo se torna o palco para a representação teatral da própria vida. A realidade vista através de filtros de imagem ajuda a maquiar momentos sem atrativos. O vazio dos pensamentos tem de ser preenchido com citações alheias; o programa comum da sexta à noite tem de se mostrar um ode à celebração da vida; o mau humor de alguns dias tem de parecer uma doce tristeza reflexiva...

Mas pior do que a teatralização da própria vida é a constatação de que, fora do teatro, nada faz sentido. Os momentos não se bastam, as pessoas não se bastam. Não é suficiente sair com amigos, viajar, sair para jantar, casamento, lua de mel. Cada instante só se torna pleno com a publicização irrestrita.

Saborear cada momento da vida sem se importar com que os outros irão pensar: a assertiva boba e clichê hoje é sabedoria.

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