segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Carreiras públicas nas raízes do Brasil

“[A sedução das carreiras liberais] é o motivo da ânsia pelos meios de vida definitivos, que dão segurança e estabilidade, exigindo, ao mesmo tempo, um mínimo de esforço pessoal, de aplicação e sujeição da personalidade, como sucede tão frequentemente com certos empregos públicos.”

A frase acima não foi proferida por um desses críticos dos empregos públicos, tampouco foi dita recentemente, em meio a essa moda de fazer a vida andar ao ritmo dos editais. Quem a falou foi o erudito Sérgio Buarque de Holanda, no longínquo ano de 1936. Ainda não havia Cespe, FGV ou Esaf, mas já então pairava um certo fascínio pelas carreiras públicas.

A explicação do autor do aclamado “Raízes do Brasil” não é trivial. Não se resume ao binômio salário e estabilidade. Vai mais profundamente, perquirindo a gênese de um comportamento tipicamente brasileiro.

Aqui, como também no Portugal de Camões, a nobreza nunca foi contestada, mas sim almejada. Não houve revolução social para destituir os privilégios da aristocracia tradicional; antes, lutas para obter essas mesmas regalias. Nessa Pasárgada de Manuel Bandeira, onde todos são amigos do rei, prevalece a afetividade nas relações públicas, predomina o senso de camaradagem, numa expansão para o público do que é privado.

Num ambiente assim, que virtudes haveriam de ser louvadas, senão o prestígio e a fidelidade? Para quem é nobre, não importa o trabalho manual, a transformação da natureza, mas a exibição de certas qualidades inatas, a demonstração de uma aura de importância que se vincula ao indivíduo. Exalta-se aqui a personalidade e nossas instituições são marcadas pelo personalismo.

Portadores de títulos e diplomas meramente decorativos, nossa “nobreza” satisfazia-se com o saber aparente, procurado sobretudo como fator de prestígio. É disso que Sérgio Buarque de Holanda fala na frase acima. A ânsia pelas profissões liberais repercute também nos empregos públicos, já que cargos de ministro, diretor, superintendente, além de não exigirem muito de esforço pessoal, serviam para lustrar a imagem de seu detentor.

A exigência de concurso público certamente foi uma mudança considerável que se operou desde então. Hoje o prestígio social não pode ser considerado motivo atraente para as carreiras públicas. Contentamo-nos com cargos de técnico e analista. Mas o pouco esforço e a promessa de estabilidade ainda chamam multidões ao mundo dos concursos. Quem nunca ouviu alguém dizendo que tal cargo é o ideal pois ganha bem e não se trabalha nada...

De fato, a cultura da personalidade é forte nos brasileiros; está no nosso sangue, no nosso dna. São as instituições que têm de se moldar aos desejos do indivíduo e não o contrário. Nos empregos públicos, segundo o imaginário popular, há um amplo espaço para que o indivíduo acomode seus projetos pessoais no ambiente do trabalho.

Ora, então por que o espanto? Se cultuamos tão fervorosamente a satisfação pessoal e a qualidade de vida, se nossa cultura personalista é capaz de dobrar instituições aos anseios individuais, é para a Meca dos concursos que se dirige a peregrinação dos brasileiros.

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