quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Elegendo Odorico Paraguaçu

Já imaginou se um pai olhasse para o filho de oito anos e resolvesse sustentá-lo de outra forma, dando dinheiro e não bens. Dois mil por mês na mão de uma criança para ele pagar escola, comida, transporte e lazer. Nem Rousseau acreditaria no sucesso dessa empreitada, por mais que pregasse a pureza infantil. Vá lá, talvez a criança não morresse de fome, mas é certo que não se desenvolveria tão bem quanto as crianças normais sustentadas materialmente por seus pais.

Eis o dilema de dar poder a alguém que ainda não está preparado. A transferência precoce de recursos certamente degenerará em má administração.

Transpor o exemplo para a política brasileira é fácil, pois criamos aqui essa figura esdrúxula do município. A campanha para vereador e o nível dos candidatos causa verdadeira ojeriza pública. Os desmandos de prefeitos desqualificados em cidadezinhas do Brasil compõem o nosso folclore político já acostumado à corrupção.

O problema não está na forma nem na ideia, e sim no tempo. Que o povo local tenha seu governo local e decida por si os rumos dos negócios públicos é o ideal. Que esse governo se constitua de uma instância executiva e outra legislativa e fiscalizadora é um modelo aceitável. O problema é querer instalar a ágora grega em toda e qualquer sociedade, a despeito das circunstâncias reais.

Toda sociedade bem organizada tende à autonomia, assim como toda criança bem criada busca a independência. Mas aqui atropelamos a ordem natural das coisas. Demos poder a pessoas que não sabem para que ele serve. Antes de nascer a consciência da coisa pública, esta que faz ver as necessidades comunitárias a par das demandas privadas, não há como sonhar com democracia. Como confiar em um governo do povo se esse não se vê como um, se se vê apenas como um agrupamento humano? Instituir um governo autônomo nessas localidades é convidar os governantes ao enriquecimento próprio às custas de um dinheiro que é de todos e por isso não é de ninguém.

O Brasil sempre foi um país centralizado, com um governo centralizador. Após a monarquia firme de D. Pedro II, quisemos copiar a federação americana dando autonomia às províncias no nosso 15 de novembro. Quase um século depois, vendo o poder estadual nas mãos de oligarquias familiares, tentamos dissipar ainda mais o poder criando e dando autonomia política aos municípios.

Foi o mesmo erro que dar dinheiro a crianças para que elas provejam seu próprio sustento. Fruto dessa nossa ilusão de que uma canetada legiferante pode resolver problemas históricos. Agora temos de conviver com crianças mimadas, pois o grosso das verbas municipais são repasses da União e dos Estados, e corruptas. Não há mais volta no estrago feito.

A questão atual é saber como fazer surgir a vontade de participação popular na política com uma “democracia” já formada, como reorganizar a sociedade tendo à frente instituições pré-fabricadas. Temos que remendar o furo do pneu da bicicleta com ela em movimento.

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