quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Determinismo biopsicológico


Um jovem entra em uma escola e atira em crianças. O massacre bárbaro não exige explicações acuradas; o mal é muitas vezes inexplicável. Mas parece que não há conforto, nem paz nem descanso enquanto alguém não nos diz o porquê. Qual será essa força misteriosa que guia a vontade e impele à ação? Descobrir quem segura as rédeas do homem sempre foi um enigma, um desafio ao entendimento da vida e do futuro.

Fado, destino, fortuna ou sorte, eis no que os antigos criam. Homero nos conta como os gregos aceitavam cada flecha que errava o alvo como uma determinação precisa dos deuses, de modo que o destino dos homens já estava traçado. Todos sabem que a fuga de Édipo à profecia que lhe havia sido feita apenas o levou a cumpri-la integralmente.

Os cristãos da Idade Média trocaram o Fado pela vontade divina. Não há erros dos príncipes nem falhas dos clérigos; se existe miséria ou opressão é porque Deus assim quer.

Alguns séculos depois, essa crença ganhou ares científicos. A genética permitia reconhecer os criminosos de nascença. Lombroso disse que eles tinham o nariz torcido, lábios grossos, braços excessivamente longos, orelhas grandes e separadas. Outros alegaram tratar-se não das forças genéticas, mas das forças sociais. O crime advém da pobreza. Mate a miséria e os delitos cessarão.

Preconceitos, superstições, falácias. Apesar do cocheiro, o ser humano será sempre um cavalo guiado por uma corda que nem ele mesmo vê. Todas as formas de determinismo retiram do homem sua humanidade ao privá-lo da liberdade de ação. Afinal, quem age pelos instintos são os animais. Ninguém se nega a reconhecer a influência dessas forças – Deus, a genética, a sociedade, as circunstâncias. Mas se ficar de pé é vencer a força da gravidade, se andar é vencer a força do atrito, viver é superar as forças do destino.

O grito da liberdade, porém, parecer diminuir no fundo da garganta. As correntes frias do determinismo voltam a escravizar o homem, deixando-o servo de outrem. O senhor das ações da humanidade agora é o próprio corpo. Sim. Esse agregado biológico de células e compostos químicos é quem dita a moral dos novos tempos. É chegada a vez do determinismo biopsicológico.

Trata-se da volta do determinismo genético sob uma roupagem mais light, mas tão devastadora quanto. Alcoolismo é doença. Preguiça é doença. Obesidade é doença. Timidez é doença. Menino mal educado é doença. A abordagem é mais sutil, e por isso mesmo de maior aceitação. Ao invés de afirmações taxativas, indicações mais abertas, mas que no fim dão no mesmo.

Predisposição genética ao alcoolismo soa melhor. Disfunção hormonal. Problema nas sinapses do córtex cerebral. Síndrome de Kleine-Levin. Síndrome do Pensamento Acelerado. Déficit de Atenção. Bipolaridade. O que significam esses nomes? Questões do cotidiano traduzidas em termos médico-científicos. A felicidade, aliás, só é possível quando prescrita pelo médico.

Essa é a nova moda de nossa sociedade. Estudos comprovam que quem come mais gordura terá um casamento mais satisfeito; quem dorme menos de 7 horas por dia será infeliz; quem ingere mais vitaminas terá um salário melhor; quem tem o lado direito do cérebro mais desenvolvido será mais amado. Pergunte ao doutor, e ele saberá te responder tudo, por que você fica triste, por que come sem parar, por que gosta daquela pessoa, por que às vezes quer ficar deitado na cama, por que pensa desse ou daquele jeito, por que tomou aquela decisão, por que um jovem mata criancinhas, por que os criminosos cometem crimes.

A liberdade está presa nas cadeias de carbono que o corpo erigiu, patrulhada por hormônios e vigiada por estímulos elétricos. Invertemos o senhor e o servo, pois, ao contrário do que pensávamos, a alma é controlada pelo corpo, e não o inverso.

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