quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

O exterminador da Síria

Um exterminador ronda pela província romana da Síria. Acompanhado de alguns homens, se dirige rapidamente, sem perder tempo, olhar sempre à frente, passos decididos. A viagem já dura mais de quatro dias, mas o possível cansaço não é motivo para retirar do corpo a ferocidade com que persegue o ideal.

A estrada é movimentada. O caminho vai desde a sublime Alexandria no Egito até Antioquia, a grande porta do oriente, passando por Jerusalém e Damasco. Por ali passam mercadores que cruzam o vasto império de César fazendo o intercâmbio de bens e iguarias. Transitam centúrias romanas, escravos, homens livres.

De todas as razões que levam alguém para a estrada, a daquele homem em especial estava estampada em seu semblante. Não se sabia de onde vinha, mas, pelo andar apressado e entusiasmado, o destino parecia estar perto. E uma coisa era possível afirmar sobre ele: estava perseguindo alguém. O olhar revela o que a boca tenta esconder. O faro aguçado e atento, tal qual do predador, alimenta nos olhos uma faísca viva e envolvente, poupando todas as forças para o bote fatal.

Um homem em tal estado decai em condição de animal selvagem. Faz adormecer a consciência e acorda o instinto. Só o que pensa é em sua presa. Não ouve nem se atenta em mais nada. A selvageria que nos animais é requisito da sobrevivência, nos homens é uma amarra ao coração. Esse homem era um predador que respirava ameaças de morte a seus perseguidos. Ai de quem se detivesse em seu caminho de fúria. Certamente seria lançado na prisão.

A boa aparência desse exterminador da Síria permite supor ser um homem de respeito. A face dura e altiva e o andar resoluto não combinam com um ex-escravo ou criminoso, de modo que era mais provável que fosse da força policial. Caminhava em busca de justiça. Talvez perseguisse um ladrão ou assassino. Tanto melhor; homens de tal fibra garantem-nos a ordem.

O bonito oásis de Damasco já podia ser avistado no horizonte, e mais uma vez o olhar denunciava que a caçada chegava a sua parte final. Nada pode brilhar mais no deserto do que o sol do meio dia. Mas então surgiu uma luz de maior esplendor, um clarão fulgurante que fez o homem e seus companheiros caírem prostrados. Os outros homens ouviram uma voz sair daquele raio vivo, mas não entenderam o que era dito.

A voz que saiu do clarão tinha apenas um destino e um coração; as palavras foram poucas, mas diretas: – Por que me persegues?

Ora, o exterminador estava a mando da justiça, tinha cartas que lhe outorgavam autoridade, e só perseguia criminosos. Deveria ser engano. “Quem és tu, senhor?”, perguntou ele prontamente. E então aquele esplendor de luz se identificou. O abismo dos mares não pode se agitar mais forte do que uma tempestade na consciência do homem. O bandido que ele perseguia era o rei que tanto aguardava. O perseguidor havia sido encurralado pela sua própria presa, o justiceiro enganado por sua própria justiça.

O momento é difícil. A entrega não é simples. Desvencilhar-se de padrões, de conceitos, de crenças; despir-se do orgulho, da altivez, da soberba. O exterminador verifica por um momento seu arsenal, confere suas armas como querendo ainda medir-se em forças com seu oponente. Mas a glória de tal visão não abre espaço para a insensatez. E num gesto terno de submissão ele deposita ao chão as suas armas. Em outras palavras, ele se rende.

Mas não é apenas a aceitação de que seu oponente é superior; a submissão é completa. Tampouco o domínio será exercido pela força; a majestade do rei o leva à adoração sincera. O que antes era inimigo faz-se amigo. O exterminador se torna humilde servo de seu perseguido, e faz de sua viagem a jornada literal do arrependimento, pois agora muda a direção e segue para o caminho oposto.


Atos 9

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