quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

O jogo da vida moderna

Vivíamos como em um tabuleiro de xadrez. Os limites estavam bem delineados e cada qual tinha um papel certo, um movimento determinado. A vida era mais rígida sim, mas um pouco menos complexa. Dava para saber o que fazer e a aonde chegar.

O jogo hoje mudou. No chão não existem mais marcas, não há limites nem fronteiras. Esse negócio de atribuir função a cada um desapareceu, a mobilidade é, pois, irrestrita a todas as peças. A propósito, as regras do jogo estão sempre mudando, pois é o jogador quem dita as leis da partida.

O jogo da vida é esse mesmo. Um tabuleiro sem marcação, peças sem distinção e regras em mutação. O cavalo poder virar bispo, que pode virar rainha, que pode virar peão, e todos juntos podem avançar ou retroceder e andar para onde quiserem. Mas então como se ganha? Exatamente, não há vitória ou derrota, as peças apenas se movimentam num vai-e-vem aparentemente caótico.

Nessa desilusão pós-moderna, as palavras estão em regime de engorda para abarcar cada vez mais e mais significados. Recheadas de ambiguidade e com gosto de subjetivismos, palavras apontam para vários objetos.

Aborto agora é interrupção terapêutica do parto; opinião contrária é preconceito; vício moral é distúrbio psicológico; Caixa 2 são recursos de campanha não contabilizados; fisiologismo é igual a governabilidade.

E assim as linhas do tabuleiro estão sendo apagadas.

A máxima do cada coisa em seu lugar foi ultrapassada, porque agora todas as coisas estão em todos os lugares, como num quarto de adolescente. O papel social das pessoas e das instituições desvanece frente a “evolução” dos costumes.

O pai já não é pai, é um amigo dá conselhos. Aliás, pai e mão já não são mais homem e mulher. A família já não tem regras, é uma união utilitária de indivíduos autônomos ligados por laços de interesses. A escola não ensina, mas observa enquanto o aluno cria o seu próprio entendimento, a seu ritmo, a seu modo. A arte não traz a beleza, serve apenas para chocar a realidade.

E assim as peças do jogo se tornam indistintas.

Um dia, alguém, cansado após horas e horas jogando esse jogo, gritou a seu oponente: Vale tudo! Que valor têm as regras da religião ou da filosofia, de que valem as esperanças das ideologias? São amarras. Afinal, já que não há marcas no tabuleiro nem peças diferentes, o legal deve ser correr nesse infinito e fazer da vida uma aventura do movimento, sem ponto de chegada ou de partida.

E assim não há mais regras do jogo.


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