quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Gosto da tristeza

É o paladar um dos pontos de abertura do mundo externo com a interioridade do homem. Uma mordida, um gosto, uma sensação, uma lembrança. Boas memórias podem vir da boca. Aquele gostinho de pipoca doce é um passeio pela infância, nas filas de circo e em passeios felizes. Aliás, quantos gostos têm esses anos de criança, de Ovomaltine mal diluído no copo, de Nesquik de morango, de bala 7Belo.

Comida na boca traz lembrança, mas já fora da boca ela traz expectativa. É o famoso encher a boca d’água quando se sente o cheiro de alguma suculência na hora da fome. Chegar em casa depois das seis da tarde é sentir na vizinhança o cheiro de café, o frescor do pão quentinho e o aroma de algum quitute que alguém se aventurou a fazer.

Mas que tristeza é chegar em casa nessa mesma hora e receber com pesar a notícia de que hoje à noite a janta será... sopa! É um tiro na alegria da tarde; um soco na expectativa de comer. Quanta indiferença essa comida traz, a ponto de se cogitar dormir de barriga vazia.

Não sei por que, mas esse trauma deve ter sido coisa de menino. Aquela tarde de cama, doente, feliz por ter faltado aula, mas sem ânimo para aproveitar o dia. Não há como descer para brincar embaixo do bloco, nem mesmo na sala há coragem para tanto. O jeito é deitar e assistir televisão. Cinema em casa no Sbt, sessão da tarde na Globo, depois ainda era tempo de Programa Livre. E depois, o tédio. A dor de cabeça já estava estourando, o mal estar não tinha passado, e na televisão, jornal. A tarde ia caindo, a noite chegando e com ela uma agonia doentia, a voz de Gil Gomes dando medo no Aqui Agora, e você sozinho naquela escuridão crescente.

E então seus pais chegam em casa. Esperança. A doença tira o apetite, mas a expectativa que o momento da refeição traz é universal, e podia alegrar um corpo abatido. De repente minha mãe, na mais pura das intenções, diz que irá fazer sopa porque eu estou doente... Há na mesa algo mais sem graça do que sopa? Melhor seria se entregar à prostração. Olhar aquelas bolhas de água passeando no prato, assoprar a colher para esfriar e encarar aquela comida sem graça. Era o jeito.

Sopa remete a um ambiente doentio, de hospital e prisão. Não tenho aversão à sopa. Pelo contrário, até gosto. O que não dá é para aguentar esse ar meio depressivo que vem com ela. Outro dia ouvi que alguém, fazendo uma dieta, só comia sopa à noite. Não consegui conceber esse absurdo. Se o objetivo é emagrecer, melhor não comer nada do que, toda noite, passar por esse suplício de tristeza.

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