segunda-feira, 4 de março de 2013

Papa, Conservadores e Progressistas




O que foi tornará a ser, o que foi feito se fará novamente; não há nada novo debaixo do sol. Haverá algo de que se possa dizer: "Veja! Isto é novo!"? Não! Já existiu há muito tempo; bem antes da nossa época (Eclesiastes 1:10).

Tempos de escolha de um novo papa seguem um cronograma mais ou menos igual. Especulações diversas e monótonas, coberturas completas, discussão sobre a idade de tal candidato, torcida para um brasileiro emplacar.

Um tema, porém, é recorrente nos debates: que “partido” do Vaticano vencerá a disputa, progressistas ou conservadores. Será que o novo papa fechará os olhos para as mudanças históricas ou promoverá uma adaptação eclesiástica. Afinal, como muitos jornalistas que subitamente se acham entendidos do assunto dizem, eis a grande missão de um papado no século XXI: aproximar a Igreja dos costumes sociais dos novos tempos, como aborto e casamento homossexual.

Há nisso tudo uma visão um tanto quanto distorcida da história, que diz que o que é novo sempre é melhor. Nesse jeito de olhar as coisas, o mundo caminha para frente, numa marcha dialética infalível, onde cada estágio subsequente é necessariamente superior ao antecedente.

Se a mudança se condensa em tendência, então é boa. O novo é melhor. Apegar-se ao passado é tradicionalismo, conservadorismo arcaico, fanatismo medieval. Mirar homens ou ideais de tempos pretéritos hoje em dia é como ver um homem que se recusa a largar o DOS no seu 486.

A propósito, a tecnologia catalisou essa visão de que a história anda para a frente. Quem não atualiza seus softwares a cada semana logo fica preso num passado longínquo e atrasado. Temos fé inabalável de que a versão 2.1.2 será certamente melhor que a anterior.

Celebramos o novo porque nossa sociedade se constitui no movimento. A visão de que as coisas passam e ficam para trás dá a ilusão de que avançamos para a frente, e em alta velocidade. Marinetti e seus colegas futuristas não lograram destruir os museus, mas o passado ficou como que empalhado numa exposição artística, sem voz. Herança de um modernismo iconoclasta.

Tal é a visão acrítica, simplista e presunçosa de que o novo é sempre melhor. Filtrar as mudanças não é resistir a elas; criticar o futuro não é viver no passado. Erraram aqueles que julgaram ser o automóvel uma moda sem futuro, que nunca ia superar o cavalo. Mas também erraram os que viram nos totalitarismos europeus o ápice da organização estatal e social.

Falar de progresso é legítimo, assim como empreender esforços para que a sociedade avance para um estágio melhor. O que não se pode aceitar é que o novo seja sinônimo de progresso. Até porque grandes movimentos de reforma da humanidade tiveram seu foco no retorno ao passado.

Ainda não se sabe de que ala da Igreja virá o novo papa. Mas achar que a Igreja estará em melhor caminho se atender aos novos reclames da sociedade é um erro. Afinal, se se está no caminho errado, cada passo para frente é um passo mais longe do destino final.

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