sexta-feira, 12 de abril de 2013

Um País de Classe Média


Crédito, consumo e felicidade, tal é a promessa que tem se estendido a milhões de brasileiros nos últimos anos. A nova classe média, as classes C e D, entrou de vez no mundo do consumo em decorrência do aumento do poder de compra e do crédito barato. Nessa nova década que se iniciou, o Brasil se tornou de fato um país de classe média – de famílias assalariadas com relativo acesso aos bens e serviços da economia.

Essa transição social traz consigo incontáveis implicações. Os aeroportos lotados, as filas nos hospitais particulares e os engarrafamentos constantes são sinais desse momento histórico. Outros países já passaram por essa virada.

Nos anos 50, os Estados Unidos viveram momento semelhante. Após a guerra, a capacidade produtiva estava a pleno vapor, e assim continuou por vários anos. O consumo explodiu, acelerado pelo baby boom, pela guerra fria e pelas demandas de uma sociedade de massas.

O american way of life nascia ali. As famílias crescentes mudaram-se para o subúrbio, o subúrbio chique, de casa de dois andares, sem cercas e com segurança. Na garagem, carros bonitos e espaçosos; dentro de casa, os eletrodomésticos de última geração, geladeira, máquina de lavar, enceradeira... E no centro, a televisão, como o altar sagrado de uma sociedade do entretenimento.

Entretanto, uma infraestrutura já consolidada dava suporte à era do consumo. Kilômetros de rodovias foram feitas na administração de Eisenhower, mas o país já estava todo interligado há um século pelas ferrovias. A demanda pelos bens materiais estimulou a economia, mas o país já dispunha de um parque industrial altamente inovador. O investimento público abundou nessa época de Welfare State, embora o capital privado já se sentisse a vontade para investir na América.

Além de ter um alicerce firme para segurar o aumento do consumo, o país dispunha de líderes que pensavam além de sua geração. O momento favorável foi aproveitado quando o país formou as milhões de crianças em universidades públicas de altíssima qualidade. Quando vendeu ao mundo uma imagem de sonho e liberdade ao exportar filmes e pop stars. Quando assumiu a liderança global com uma agenda positiva. Kennedy mirou dez anos a frente prevendo que o homem pisaria na Lua. Acertou mais longe, visto que a tecnologia da corrida espacial fomentou as telecomunicações e a nanotecnologia décadas mais tarde.

No Brasil, o momento de virada social é semelhante, embora todo o resto seja diferente. É claro, as circunstâncias históricas são outras, e não há como aparelhar países de realidades tão díspares. Mesmo assim, ainda cabe a comparação no que tange ao futuro. O crescimento da economia e a inserção de famílias no mundo do consumo é um fato, mas o que se faz a partir disso é que tornará o circunstancial em perene e duradouro.

De cara, nos falta lideranças. Os líderes ou estão eufóricos com as promessas de que o futuro do “país do futuro” já chegou ou estão se apequenando em disputas fisiológicas do poder ou estão calados. O momento no país é novo; as mudanças estão ocorrendo – vide a aprovação da PEC das domésticas na semana passada. E não há quem apresente novas ideias, quem mire o futuro e indique direções.

A visibilidade global se esvai na nossa política externa atrapalhada. Sim, falta criar uma Hollywood nacional que exporte o brazilian way of life, que venda nossa simpatia, nossa bossa-nova, nossa alegria (não me refiro aos filmes patrocinados pela Ancine e nem ao carnaval...). Falta se fazer ouvir no mundo.

Além do que ainda corremos atrás de estrutura social e infraestrutura material. Até aqui, temos adiado todas as reformas inadiáveis: a reforma política, tributária, educacional, o pacto federativo. A matriz energética é precária, os transportes sofríveis.

Somos um país de classe média, isso é fato. A questão é se vamos apenas viver o bom momento ou construir as bases do futuro, porque, afinal, no crescimento baseado em consumo parcelado no cartão de crédito, a cobrança vem mais tarde, e com juros.

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