terça-feira, 21 de maio de 2013

A crise grega


Ter vizinhos ricos não traz riqueza. Pode melhorar a reputação e a segurança do bairro, mas não muda nada dentro de casa. Ser membro da União Europeia não significa ser país desenvolvido. Pode dar acesso a uma infinidade de bens e serviços e oportunidades, mas não tem o condão de alterar de uma vez problemas estruturais.

Esse é o dilema da Grécia, país pobre que faz parte de um grupo de países ricos. País pobre? De certo modo sim. Andar pela Grécia é como andar pelo Brasil. Ruas sujas, pichadas, mendigos na rua, pobreza à vista.

Que foi que aconteceu à terra dos deuses, ao berço da humanidade? Se pararmos para pensar bem, a Grécia nunca foi nada além de um império intelectual. Os exércitos que se formavam perdiam tempo e recursos brigando entre si, e então o que restou foi a riqueza da cultura, da arquitetura e das artes, das filosofias e dos pensamentos. Alexandre apropriou-se desse valioso espólio, e depois vieram os romanos e os turcos. Mas a Grécia, a terra, não a cultura grega, ficou esquecida por longos séculos.

Por isso, falar da crise grega é falar da história do país, e não apenas avaliar a economia recente. Uma comparação ajuda. Espremer a economia helênica até pingar o último recurso é como exigir que o semiárido do nordeste brasileiro se adapte às condições do capitalismo: a geografia, a cultura e as pessoas são contrários a ideia.

A geografia traça a moldura do problema grego. O clima seco, a terra montanhosa e o solo pedregoso impedem o cultivo de culturas agrícolas para exportação. Nessas condições, a produção se restringe a vinho e azeite, e a rebanhos de cabras e ovelhas. E ainda assim em escala reduzida. Grandes indústrias não existem no país, e até parece que a maior parte das coisas ainda é artesanal.

O estilo de vida é pacato, religioso, e apegado à tradição. Parece que o mundo que tanto se valeu dos conhecimentos da Grécia a esqueceu, e ela esqueceu o mundo, preservando um estilo de vida onde o tempo passa mais devagar. Atenas, sua capital, tem cara de cidadezinha do interior, com velhinhas católicas passeando pela rua, taxistas jogando gamão e sinos badalando a todo instante.

Como querer que um país assim tenha uma produção econômica do nível da zona do Euro? A entrada na União Europeia facilitou a captação de recursos pelos bancos gregos mas deixou todo o crédito sem lastro produtivo. E agora não há como pagar a conta. Além disso, a vinculação a uma moeda única é um problema adicional já que reduz o poder aquisitivo da população.

Como contornar uma crise que não é apenas econômica, mas histórica? Talvez os gregos pensem em algo, já que em assunto intelectual eles são fortes.

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