terça-feira, 18 de junho de 2013

10 Notas sobre as Manifestações

As ruas do país estão tomadas. Não se pode negligenciar o movimento. Há um clima de incerteza, há um clima de mudança. Os que saem às ruas vivem dias eufóricos; os que ficam em casa alternam-se entre a indiferença e a contrariedade aos manifestantes. A movimentação é difusa e sem liderança, por isso afirmações categóricas correm o risco de se perderem no viés ideológico do interlocutor.

A análise deve ser feita calmamente, por partes, então vamos.

1.      Protestar é bonito

A primeira observação é que o movimento é bonito. É legal ver o povo mobilizado, é legal ver a nação acostumada a não batalhar irromper em levantes populares. As imagens postadas nas redes sociais acendem aquele espírito revolucionário latente em cada um de nós. O Congresso Nacional tomado por manifestantes, que orgulho! O gigante acordou!

É bonito dar uma de revolucionário. Lutar por um mundo melhor, por um país melhor, quem poderá ser contra? O jovem tem dentro do peito, naturalmente, a chama da paixão altruísta dentro de si. Não julguemos, pois, a intenção boa, válida e comum a essa fase da vida.

2.      Protesto de estudantes de classe média é legítimo

Ah, mas o que esses filhinhos de papai estão fazendo nas ruas se já tem tudo em casa? A maior parte dos manifestantes é de classe média, tem acesso aos bens de consumo do momento, estudam em universidades públicas ou particulares caras, viaja para o exterior. Então o que eles querem nas ruas? São rebeldes sem causa, baderneiros, riquinhos etc.

Realmente poucos ali pagam impostos ou sentem o peso da inflação. Mais provável é que sintam a alta do dólar. Mas movimento de classe média tem validade sim. Aliás, a mobilização social de cima para baixo foi a tônica das transformações do Brasil. A abolição da escravidão e o movimento republicano foram encabeçados por filhos de senhores de engenho estudados no exterior; a revolução de 30 foi resultado da insatisfação de oligarquias estaduais preteridas na dança do poder; a redemocratização não veio pela luta armada do povo, mas começou do voto indireto do Congresso.

Se são os estudantes de classe média a protestar, isso, por si, não atrai o descrédito do protesto. Movimentos de cima para baixo são a forma brasileira de promover mudanças, o que não impede que as mudanças sejam meritórias.

3.      Protestos não são revolução

A legitimidade de jovens de classe média protestarem não faz do protesto uma revolução. Os serviços públicos são precários, a corrupção é generalizada e a institucionalização política não representa os anseios populares. Mas as instituições democráticas funcionam no país, ainda que do nosso jeito, ainda que à base de gambiarras e soluções transitórias.

Vivemos o mais longo período democrático de nossa história. A Constituição existe há 25 anos e já tem mais de 70 emendas, mas é por meio dela que se tem resolvido os conflitos institucionais. As regras do jogo democrático têm balizado a ação dos três poderes. Sim, há muito a ser melhorado, mas não há espaço ou apelo a golpes de estado nem censura à imprensa (nem mesmo a tentação do terceiro mandato colou).

Há liberdade de expressão. O povo não precisa conter a insatisfação e romper de uma vez com ira pelas ruas, pode fiscalizar as obras públicas, avaliar os mandatos dos políticos eleitos, criticar projetos de lei, se mobilizar a favor de outros. Os canais democráticos estão abertos e podem ser explorados. Não há necessidade de revolução.

4.      Mobilização popular dentro dos canais democráticos surte efeito

Quando se fala de povo unido, não se pode pensar apenas nas grandes manifestações populares. O impeachment de Collor é muito distante como referência. Olhemos mais perto. A Lei da Ficha Limpa veio de projeto de lei de iniciativa popular. E já está mudando o paradigma eleitoral do país. A PEC das Domésticas veio também de pressão popular. Ou seja, usar dos meios institucionais surte efeito e não é tão difícil.

5.      Onde estava o povo na aprovação do RDC?

Uma das bandeiras dos protestos é o gasto milionário com a Copa. A propósito, onde estava o povo quando foi aprovado o RDC? Não sabem o que é RDC? Pois é.

6.      Falta de pauta redundará em vandalismo

Mas afinal, o protesto é contra o quê? Não são só 20 centavos, não são só os milhões gastos com a Copa, é a educação sofrível, a saúde precária, é a Dilma, o Alckmin, o Haddad, os políticos todos, é a inflação, a corrupção, a repressão da polícia. Contra tudo e contra todos.

Mas e então, o que deverá ser feito para acalmar a turba? Quando as massas saem ensandecidas, buscam personificar o mal: reis, comunistas, judeus. Cabeças têm de rolar para satisfazer a ira santa do povo, ou alguém deve ser crucificado.

Quando o povo sai exaltado às ruas, quer ver alguma coisa, alguma mudança, quer fazer alguma coisa. Com uma pauta tão cheia e difusa, não há como sair vitorioso num protesto por “um mundo melhor”. A falta de pauta definida pode até refletir um descontentamento geral, mas não produz resultados concretos. E aí haverá sempre um subproduto: vandalismo. A maioria é pacífica, tudo bem, mas as multidões não são controláveis. A fúria descontente de um protesto sem pauta, ou com todas as pautas, irá extravasar aqui e ali, contra os ônibus, contra os estádios, contra a Assembleia do Rio, contra os policiais. É inevitável.

7.      Falar de repressão é absurdo

Não existe repressão policial no Brasil tal como querem alguns. A liberdade de expressão existe e está sendo exercida. A polícia não está defendendo um governo, uma ideologia, uma classe. Sai às ruas apenas para manter a ordem. É dos trabalhos mais difíceis, e às vezes ela pode perder o controle. Mas falar em repressão é olhar com saudosismo a ditadura querendo com isso dar força ao movimento.

8.      Polícia não é órgão impessoal e policiais não são robôs

Polícia não é um organismo impessoal, é uma corporação formada por policiais. E os policiais não são robôs, são homens. Homens que têm problemas na família, que têm emoções, que têm dias ruins. Sofrem tanto quanto os outros os problemas da inflação. Arriscam a vida, ficam horas de pé, aguentam insultos e ultrajes. Testam ao máximo sua paciência.

No clima tenso das ruas e dos protestos, basta uma fagulha para que a coisa exploda. Quando o caos se instala, policial não tem visor à la Robocop ou Homem de Ferro para identificar quem é manifestante, quem é jornalista, quem é vândalo. A ordem é dispersar e, claro, eventualmente sobra para quem não tem a ver. Mas o maior preparo do mundo não previne acidentes. E nessas situações onde a própria vida está em risco, tem como exigir algo diferente dos policiais?

9.      Protestar não muda o mundo, mudar a cultura sim

A mudança tem que vir de cada um. É clichê, é batido, mas é verdade. Ainda mais para nós, brasileiros, criados na cultura do jeitinho. O itinerário da malandragem começa cedo. Crianças já aprendem técnicas de sonegar impostos trazendo iPhones e iPads escondidos de suas viagens no exterior. Jovens vão para as universidades públicas e acham que o dinheiro público investido neles é licença para matar aula e fumar maconha. Depois vem a declaração do imposto de renda. E daí em diante. A corrupção dos políticos é só o jeitinho de cada um de nós aplicado ao bem público.

Mudar cultura demanda tempo, e demanda sacrifício de todos. Sacrifício de hábitos, e não apenas das cordas vocais a gritar nos protestos.

10.  Passe Livre: idiotice tem limites


Transporte público gratuito fornecido pelo governo. Parece piada, mas também é uma das bandeiras dos manifestantes. Só para lembrar, educação e saúde também são serviços gratuitos prestados pelo governo. Não precisa falar mais nada. Tudo na vida tem um preço, alguém tem que pagar a conta. Se é para concentrar os protestos em algo tangível, que não seja nessa idiotice do Passe Livre.

3 comentários:

mlessa disse...

Muito lúcida a sua manifestação, Rodrigo. Concordo plenamente!

Sca disse...

Totalmente de acordo. Temos que pensar com a cabeça fria, objetiva.

Manuela disse...

Legal seu texto, mas dizer q Passe Livre é idiotice a ser lutado por é uma infelicidade sua. Em Brasília, é uma grande vitória a existência dele! O que deveria ser um direito para todos nós, estudantes do Brasil!