sexta-feira, 19 de julho de 2013

Filosofia das Filas


Fila. É aquele monstro de mil pernas que assola a paciência e suga o tempo alheio. Praga que se espalha em todos os cantos do país e não deixa escapar quem tem de resolver um problema.

Você vai ao banco e a fila é garantida. Quer se divertir, ir ao cinema e ao teatro e também tem que passar pelas filas. Pegar ônibus, entrar no avião, fazer compras, ir ao hospital... Há filas e filas, a que não anda; a que vai rápido, a que te engana, parecendo rápida mas depois parando; a que fica no sol; a que se vai sentado.

Mas há algo de valor no tempo perdido, que é justamente o tempo perdido sem fazer nada. Fazer nada é fazer bem ao corpo e à mente. Seria melhor escolher não fazer nada do que ser forçado a nada fazer. Mas dá para aproveitar de um ou de outro jeito.

Ter que resolver isso ter que fazer aquilo, sair na hora do almoço para ir ao banco, para fazer compras, para fazer alguma coisa. Sempre a mente voltada para o futuro, mirando alcançar o que ainda não se tem, o corpo e as forças apontados para a conquista do próximo instante. É preciso um tempo para não fazer nada nem pensar em nada. Descansar. Viver. Sentir a vida passar. Sentir-se vivo, reconhecer-se um ser que ocupa o espaço, saber-se pessoa nesse mundo grande. 

A fila nos proporciona isso se bem aproveitada. Esperar a sua vez na fila geralmente traz um pensamento, nenhuma atitude e uma emoção: querer que chegue logo, não poder fazer nada e ficar ansioso por não chegar e não poder fazer nada. Esse é o mau aproveitamento da fila, que é o uso mais comum que as pessoas fazem dela.

O recomendado é parar e se distrair. Passear os olhos pela diversidade das pessoas que estão à frente e das poucas que estão atrás. Ouvir conversas alheias. Olhar os dutos que passam pelo teto, reparar nas formas curiosas do chão. Divagar, que é como se a mente descansasse por um tempo e assistisse a passagem do tempo e dos objetos, sem ter de emitir juízo sobre eles. Uma hora chega a sua vez.

Mas há atualmente outra ameaça ao bom aproveitamento das filas além da nossa habitual ansiedade. São os smartphones.

Parte-se do pressuposto que os smartphones dão qualidade a um tempo que seria perdido em filas. Isso até pode ser verdade, mas só por alguns minutos. Se a espera for curta, então você abre o email, consulta as redes sociais e até resolve algumas coisas. Pode-se dizer que foi um tempo produtivo.

Mas mais um pouco e volta-se a mesma ansiedade da espera. Logo você abre o Facebook e se dá conta de que já viu todas as atualizações pelo menos três vezes. Abre todos os aplicativos, vê suas próprias fotos, abre de novo o Facebook, vê que não recebeu nenhum email, abre até a calculadora e faz algumas contas sem sentido. Ansiedade tecnológica, mau aproveitamento da fila. E pior, alheamento da realidade.

O tempo perdido na fila pode ser perdido de uma forma boa. Enquanto se aguarda a fila que vai devagar, pode-se dar um descanso a si mesmo e não fazer nada, senão divagar. 

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