sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Lula, Sansão e a Força da Imagem



O metalúrgico do ABC disputou sua primeira eleição para presidente em 1989. O clima no Brasil estava fervilhando pela redemocratização e vários candidatos entraram em uma disputa quebrada e indefinida.

Lula começou a despontar nas pesquisas e então veio o medo daquele barbudo de voz grossa. Ele era a encarnação daquele ideário do comunista malvado que devorava criancinhas. Barba espessa e cheia, semblante austero, voz imperativa e camisa social quase sempre suada. Deu Collor.

Em 1994 foi mais ou menos a mesma coisa. Em 1998 a imagem começou a parecer importante para o candidato. Aquela aparência de operário sujo de graxa, de líder sindicalista molambo deu lugar ao presidente de partido grande, de terno alinhado e elegante. Não deu certo mais uma vez, mas a mudança operada veio para ficar.

Depois foi o Lulinha Paz e Amor de 2002. Sem radicalismos ideológicos, a Carta aos Brasileiros firmou compromissos econômicos e fiscais para acalmar os mercados. Mas o “paz e amor” chegou acompanhado de uma inovação estética iniciada antes. Lula virou um homem positivo, de sorrisos e gracejos. Os gritos de ordem viraram discursos de convencimento. O visual barbado de revolucionário comunista deu lugar ao candidato polido, com a barba grisalha dando um toque da sabedoria da velhice. A tão sonhada vitória então chegou.

Os oito anos que se seguiram foram consolidando esse visual grisalho de líder da nação. Lula percorreu o mundo e o Brasil sendo filmado e fotografado junto ao povo, inaugurando obras, participando de conferências internacionais. Foi aquela imagem que entrou para a historiografia nacional. O carisma político de Lula foi suficiente para que ele elegesse tranquilamente sua sucessora, com a esperança de se manter no poder informalmente.

Pensava-se que a pós-presidência lulista seria um período de consagração da popularidade, só que ninguém esperava o câncer. O tratamento fez o ex-presidente perder os cabelos e a potência da voz. A recuperação aconteceu, o cabelo cresceu timidamente, mas em lugar da barba vistosa, nasceu um reles bigode. O visual informal, de casaco, sem gravata, fez lembrar o velho sindicalista de São Paulo, ou algum taxista ocioso, mas não o consagrado Presidente da República.

O poder de Lula não está em sua imagem, mas ela pesa e muito. Dalila cortou os longos cabelos de Sansão e o juiz hebreu perdeu a sua força descomunal. No nosso caso, não foi Dilma quem interferiu na imagem de Lula, o que se deu por uma fatalidade patológica. Mas esse “corte de cabelo” tem provocado efeitos nocivos.

Já se pode ver um terceiro contraponto além da dicotomia Lula sindicalista barbudo / Lula Presidente arrumado. E é o Lula de bigode enfraquecido. Além da doença lhe ter sugado a energia e a boa aparência, os escândalos do governo Dilma que denotam uma herança maldita, a condenação do Mensalão e o decaimento da economia vão grudando nessa imagem estranha de um Lula descaracterizado.

O nome e a história do ex-presidente ainda carregam considerável prestígio, mas a imagem que ele consagrou no poder está ficando para trás ante esse novo visual. Agora que se inicia a corrida eleitoral de 2014, tudo passa a ter relevância política, principalmente a aparência de um indivíduo cuja imagem é o cartão de visitas de todo um projeto político. Será que o bigode sustentará o peso da barba grisalha?

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