segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Orgulho baixo


Inflar o ego, estufar o peito e planar sobre a superfície dos homens. O orgulho é mesmo um grave vício de caráter, às vezes mascarado de ambição ou autoestima. Curioso ver como qualidades corriqueiras são vistas pela própria pessoa como virtudes admiráveis que requerem a veneração alheia.

Curiosíssimo, aliás, é quando o orgulho se instala em características vis. Orgulho de ser ruim, de estar numa situação ruim. Não estamos falando apenas dos vilões. Não se trata daquele orgulho de ser cruel, de querer destruir o mundo e prejudicar os outros. O orgulho baixo de que falamos é mais próximo da nossa realidade.

Por exemplo, orgulho de nota baixa. Esse é o clássico exemplo de orgulho baixo do pessoal do fundão. Dia de entrega de prova de matemática. O professor chega com aquele envelope pardo na mão e todos já sabem: ele corrigiu as provas. Pelo menos ali terá fim aquela indefinição da espera. Mas o professor é cruel, todos sabem. Provas só no final da aula. Os minutos transcorrem lentamente na agonia estudantil.

Chega a hora, ele começa. De repente o burburinho vai se espalhando pela sala toda: será que é por ordem de nota? Ninguém sabe. Perguntam ao professor e ele diz que a entrega é aleatória. Ufa! Um menino tira 9 e senta discretamente. Uma menina tira 9,2 e volta ao seu lugar feliz da vida comemorando com as amigas. Outra menina se levanta, pega a prova e volta rapidamente. Não fica nada feliz com o 4,5. O mesmo sucede com um rapaz gordinho, que não esconde a insatisfação com o 4.

Mas então chega a hora dele. O orgulhoso de nota baixa antes de receber a prova já está alardeando no fundo da sala como ele foi mal, como não estudou nada, como inventou suas respostas. O professor o chama. Ele anda arrastado, rindo para os amigos, com uma confiança admirável de quem consegue o que quer. Mal pega a prova e já deixa à vista aquela folha com a anotação em vermelho escrita: 1,5. Como não bastasse, grita ao seu amigo do fundo sua nota: 1,5! Senta na cadeira feliz e saboreia a sensação de ter a pior nota da sala – com orgulho.

Outro dia presenciei outro tipo de orgulho baixo, um tanto quanto inusitado, o orgulho pela violência do bairro em que se mora. Pois é, ele também existe.

Foi no Varjão, numa tarde de sábado, em um evento comunitário no qual havia a apresentação de bandas de música. Lá pelas tantas, subiu no palco um trio de jovens rappers. Os meninos usavam camisas largas e bonés de aba reta e estavam todos de óculos escuro. O líder pegou o microfone e começou a falar em tom de raiva que faz parte do estilo rapper de ser:

– A gente vem lá de Santa Maria, uma quebrada pesada. Quando escurece nem a polícia passa por lá, de tão violenta a parada. E eu falo isso sem querer desmerecer a galera aqui do Varjão, que a gente sabe que também é uma quebrada da responsa.

Olhei ao redor para ver se alguém ali do Varjão se sentia desmerecido pelo fato de Santa Maria ser um bairro mais violento. Não consegui discernir as reações.

De todo modo, ei-lo, o orgulho de morar em um lugar mais violento que outro. Parece mesmo que não há limites para o orgulho, tanto o que magnifica qualidades razoáveis quanto o que enfeita qualidades vis. Há de tudo. 

Nenhum comentário: