sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Função social dos filmes dublados


Todas as coisas cumprem uma função social, ou seja, exercem um papel específico na sociedade. Tudo bem, todas as coisas é exagero. Mas a maioria. Até aquele sabonete aromático que você ganhou de amigo-oculto e não servia para nada, até que você dá para sua mãe e ela adora. Até os filmes dublados têm sua função nesse mundo vasto.

A princípio não tinha muita escolha. Ou você via o filme no cinema ou tinha que esperar até passar na Globo –  e dublado. Com o videocassete as coisas ficaram mais fáceis. Veio o DVD e todos então podiam escolher os subtitles. Uma revolução recente trouxe maiores facilidades: a bendita tecla SAP. Ninguém precisa ver dublado um filme bom que está passando na TV a cabo. Basta apertar um botão para colocar o som original e outro para escolher a legenda.

Mas por que tamanha discriminação com os filmes dublados? Não é nada pessoal contra a Herbert Richers ou a VTI Rio. Mas cá para nós, o filme perde sua dignidade quando é dublado. Não dá para levar a sério.

A trama está se desenrolando, você acompanha com atenção o plano mirabolante do personagem, paira um silêncio de cautela esperando a próxima cena e de repente surge uma voz do nada dizendo pausadamente: “T ó x i c o”. Toda a graça vai embora ali. Precisava vir um narrador dizer em português que um vidro de veneno que contém a inscrição “Toxic” significa tóxico?

Outro problema é a escassez dos dubladores. Aquela voz meio anasalada, meio jocosa te parece familiar. Você ouve bem e depois se lembra: “É a voz do Kiko!”. Presença marcante nos filmes. Tem a voz de certo velhinho que serve tanto para Morgan Freeman quanto para Anthony Hopkins e Leslie Nielsen. A voz de mulher apaixonada, cheia de suspiros, também é das clássicas.

Pode-se falar das piadas que ficam sem tradução na dublagem. Ou das crianças paulistas com sotaque carregado que dublam quase todas as crianças recentemente.

Mas não se pense que os filmes dublados perderão para sempre o seu espaço. Eles ainda guardam valores preciosos. O primeiro deles é a dublagem de personagens que ficaram consagrados dublados. O filme dos Simpsons é exemplo de filme que tem que ser dublado para ter graça.

Mas há algo maior. A função social dos filmes dublados está em transformar o filme em um passatempo pueril e despretensioso, fazendo uma ambientação da casa e trazendo um gostinho de infância.

Filme dublado é aquele que você vê sem dever de prestar atenção a cada fala; aquele em que você levanta, vai ao banheiro, pega alguma comida na cozinha e volta a assistir sem se importar com a parte que perdeu. O filme deixa de ser um entretenimento profissionalizado e vira um mero passar de horas que não demandam mais a fundo o intelecto. Tem gosto de Sessão da Tarde. Os filmes dublados podem até ser mera ambientação da casa, aquela televisão ligada sem ninguém de fato assistindo, só para preencher o silêncio de uma noite.

Os filmes dublados se encaixam perfeitamente naquele dia em que você está com preguiça até de ler as legendas; ou nos dias em que você se contenta em assistir a um filme pela milionésima vez, e mesmo assim ainda ri.

Além de tudo, aquelas vozes dubladas trazem um pouquinho do som da infância. A mesma escassez de dubladores que faz as vozes se repetirem nos filmes também é responsável por trazer memórias boas. Ferris Bueler em Curtindo a Vida Adoidado, Samuel Sam ou Kevin, o personagem de Macaulay Culkin em Esqueceram de Mim, não tem a mesma graça quando ouvidos no original. Por isso ver filme dublado tem um pouco dessa coisa de atiçar as lembranças infantis.

Não prometo que na próxima vez que for ao cinema escolherei uma versão dublada. Mas certamente quando deitar no sofá numa noite dessas qualquer contemplarei a função social que os filmes dublados exercem em nossas vidas.  

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