sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Brasília ou Santorini


Dizem que o pôr do sol em Santorini, ilha grega, é o mais bonito do mundo. Duvidei um pouco. Moro em Brasília. Nasci em Brasília – a cidade horizontal, onde todos os lados revelam um horizonte aberto, uma imensidão de beleza. Um pouco ultrajado em meu orgulho candango, tive de conferir a fama e julgar sua procedência.

Na Grécia azul e branca, sob o brilho forte do mar Egeu, emerge uma pequena ilha vulcânica em forma de meia lua. É Santorini. As montanhas altas ladeando a costa dão o aspecto de paisagem épica. Vários pontinhos brancos brilham incrustados na dura rocha, como diamantes em uma mina. São as vilas, cheias de casas todas branquinhas. O cenário é deslumbrante.

Do porto até o hotel, a subida assusta um pouco, mas logo passa, e então a impressão é que se chegou ao centro do mundo antigo. Um ponto de terra no meio do mar, na fronteira entre o oriente e o ocidente, num tempo entre a mitologia e a modernidade. Tal é a sensação de respirar aquele ar oceânico, como que ouvindo ecos da filosofia dos séculos.

Então começa o espetáculo. Abaixo, toda a imensidão do oceano; à frente, toda a imensidão do céu, e o sol começa sua descida lentamente com o intento de beijar as águas. O assopro da brisa abafa os ruídos desnecessários, e embala a suave melodia que é o som do mar. Tudo para nesse instante. O mundo pulsa no ritmo do astro que se despede da humanidade num drama diário.

Há duas coisas em Santorini que em Brasília não temos. A primeira é o mar. O mar que fragmenta a luz e a faz brilhar como milhões de pequenos espelhos do firmamento. Lá em Santorini, o rastro laranja que o sol coloria nas águas, desde o horizonte, cria uma aura de beleza rara.

A segunda coisa são as estações. Fui à ilha grega na primavera, período em que a escuridão chega depois das nove horas. Contudo, o que se destaca não é o atraso da noite, mas o fato de que lá o pôr do sol deixa de ser uma fugacidade no tempo para virar um processo de longa descida, durando quase três horas. O fulgor natural do fenômeno diário se estende por longos momentos, lembrando mais ainda a eternidade.

O pôr do sol em Santorini é, nessa vasta terra que Deus nos deu, um relance mais nítido do infinito e da beleza. Sem dúvida, é um dos mais bonitos do mundo. Mas não posso afirmar que é o mais. Sinceramente, Brasília, mesmo sem mar ou estações definidas, ainda remanesce como concorrente ao título.

A ausência das águas e do reflexo cintilante da luz é compensada aqui pela grandeza do céu que brilha sobre nós. Em Brasília, a abóbada celeste aumenta seu raio, aumentando assim em glória. Há mais espaço, há mais liberdade. O balé das nuvens brasilienses cria um clima festivo, descontraído, sem deixar de tributar ao momento o efeito de apoteose. A explosão de cores e nuvens e horizontes, rosas, laranjas, brancos e em todos os tons de azul somam beleza ao nosso pôr do sol.

Não temos altas montanhas. Aqui a paisagem é dominada pelas linhas retas e curvas de nossa arquitetura. E os nossos monumentos notórios também são branquinhos, fazendo de Brasília a Atenas brasileira.

Mas de todos os elementos do belo que compõem o pôr do sol de Brasília, há um que é mais especial. Nosso espetáculo natural é democrático, e está franqueado a todos, de todos os níveis, em todos os lugares. Em Santorini, pouquíssimos gregos e turistas se aglomeram para contemplar o ocaso. Aqui, seja em Sobradinho ou na Asa Sul, no trânsito ou em casa, à beira do lago ou na janela do trabalho, temos todos livre acesso a essa obra de grandeza.

Quem nasce em Brasília tem um padrão alto para pôr do sol.  Creio que em breve nossa fama se estenderá, e falarão que o pôr do sol de Brasília é o mais bonito do mundo. Turistas virão aqui conferir nossa fama; e poderei conferi-la todos os dias... 

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