quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

A Nona


O primeiro movimento é marcante. Começa quase inaudível, fazendo a gente duvidar se os instrumentos estão sendo mesmo tocados. E depois sonoras investidas dos instrumentos ressoam por todo o teatro, trazendo a harmonia da música ao ouvido de todos.

A melodia desenvolve-se de forma mágica. É curioso passear os olhos pelos músicos, atentar para atenção de cada um na execução da obra. Observar as linhas melódicas diferentes que vão se juntando para compor a sinfonia. Divertir-se com o percursionista e suas batidas enérgicas. Ou repousar a visão nos insólitos instrumentos de sopro.

E nem só de música sobrevive o espetáculo. Há por trás um balé de mãos e braços a tocar instrumentos numa sincronia perfeita. Os violinistas delicadamente seguram seus instrumentos como amantes e deslizam o arco com uma leveza audível; enquanto violoncelistas atacam as cordas produzindo sons graves e lúgubres. E depois se alternam, são os violoncelos que agora soam serenamente ao passo que os violinos cospem notas agudas e estridentes. E tudo num balé de mãos que descem e sobem ao mesmo tempo segundo o grupo dos instrumentos.

Às vezes é interessante fechar os olhos para fixar atenção na música e não se distrair com os músicos. O som exalado penetra diretamente na alma, como a recitar poesias de sentimentos indistintos que se abrigam no coração. Melodias que revelam sonhos, ou o fundo musical de reminiscências adormecidas.

Quando tudo já parece ambientado, eis que começa o segundo movimento, frenético, retumbante, numa agitação musical nervosa e ao mesmo tempo harmônica. A impressão é que as notas saem em marcha dos instrumentos, e em marcha dirigem-se ao fundo da alma.

E lá começam o irremediável processo de remexer memórias e revirar sentimentos. Será a alegria que virá à tona, ou vencerá o medo e a incerteza? Não é possível saber, posto que tudo é remexido como num caldeirão. Misturam-se todas as sensações e a alma fica sensível, transpirando emoção sem qualquer razão aparente, apenas pelo efeito mágico das notas musicais.

E então, a calma e a quietude. É o terceiro movimento que soa lentamente, calmamente, como num mantra executado por magos. É um assentamento, uma sedimentação das sensações que outrora pulavam desordenadas. A elegia produz um som contínuo, que alterna entre uma nota e outra de maneira suave, como o fluir da água em uma tarde de primavera. O espírito fica envolvido por uma aura de contemplação e sobriedade.

O quarto e último movimento irrompe com um gemido de suspense. Está-se criando um clima para algo maior que virá a seguir. A tensão remete a essa esperança de resolução das coisas. E é nesse momento que surge, ainda tímida, grave, a linha melódica mais famosa e talvez a mais bela que se conhece. Pouco a pouco vai ganhando corpo e se firmando como a sonorização da própria beleza. Afinal soa como uma apoteose estrondosa e envolvente.

No meio desse mundo de sons eis que surge um que é bastante familiar – é o som da voz humana, entoado de forma a competir com os instrumentos e ao mesmo tempo estabelecer entre eles uma fusão. Uma voz, duas e depois quatro. Ao tempo em que os instrumentos se elevam, ouve-se a voz de uma multidão, um coro a erguer sua voz como um bloco inteiriço de mármore, erigindo um templo sólido e firme. A bem da verdade, a impressão é que algumas vezes se ouve um coro angelical a entoar louvores perante o trono da graça.

O frêmito é inevitável, e percorre todo o corpo durante algum tempo. As emoções reviradas e serenamente sedimentadas agora irrompem de uma vez. Gotas marejam os olhos mas não de tristeza, de emoção, de pura emoção indizível. Segue-se então um sorriso, um involuntário abrir-se da face em feição alegre; sorriso não de graça, sorriso de contentamento.

Vem o fim, como a sintetizar em poucos minutos tudo o que se viveu na última hora. A velocidade aumenta e explode em arranjos sonoros como fogos de artifício a explodir no céu brilhante.

O que é isso, afinal? A obra não é de um autor, um gênio qualquer. Pertence a toda a humanidade. Chama-se simplesmente A Nona.

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