terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Chuva na Capital


Fim de expediente na capital federal. As ruas começam a encher-se de carros e o fluxo de veículos aumenta a cada minuto. Estamos na subida do Colorado, é um fim de tarde nublado, e um servidor público segue tranquilo em seu Gol preto, ouvindo alguma rádio.

O homem segue a uma velocidade razoável, coisa de setenta ou oitenta por hora. Subitamente o carro freia; não chega a parar completamente, mas a redução de velocidade é tão brusca que quase ocasiona um acidente. Passado o susto, o motorista do Gol acelera o carro e o mantém andando no máximo a quarenta por hora.

Quem acha que foi um animal que passou pela pista se engana. A motivação da freada veio de uma notícia que o trabalhador ouvira na rádio. Foi a mulher do tempo que afirmou categoricamente que as chances de chuva naquele fim de tarde eram muito altas, principalmente na parte norte de Brasília, em Sobradinho e Planaltina.

Chuva. A palavra tem o poder de deslocar o pé do motorista do acelerador para o freio e o compelir a pisar até o fundo. Chuva. É preciso reduzir a velocidade imediatamente e seguir lentamente até em casa. Chuva. Possibilidade alta de chuva. Reduzir a velocidade. Dirigir devagar quase parando.

Tal foi o que passou no interior daquele carro, no interior daquela mente, que o fez brecar subitamente. E assim ele continuou seu caminho, mas agora com excessiva prudência. Alguns carros começaram a buzinar incomodados com aquele estorvo no meio da pista. Uma mulher em um Corola branco, solícita, reduziu para saber o que se passava com o Gol. O motorista apontou para o céu e disse: – Deu na previsão do tempo que vai chover!

A mulher estremeceu. Teve quase a mesma reação que tivera o homem. E também seguiu lentamente ao seu lado, talvez até mais apavorada. E então já eram duas as faixas quase bloqueadas. Só restava uma faixa na qual os motoristas ainda preservavam a velocidade da via. E deu-se o mesmo com ela. Dessa vez um ônibus perguntou à mulher o que estava acontecendo, se era passeata, blitz ou outra coisa, e ao ouvir que se tratava de chuva, também reduziu a velocidade e seguiu como os dois.

O trânsito que já era intenso parou. Mesmo assim, alguns apressadinhos buzinavam e tentavam alguma ultrapassagem, às vezes com sucesso. A impaciência misturava-se com a raiva e a tensão se acumulava entre os motoristas. Mas aí caiu uma gota, e mais outra, até que começou a chover de vez. Chuva bem fraca, é verdade, daquelas que o primeiro nível do para-brisa já dá conta de resolver. Mas chuva de todo jeito.

O homem do Gol sentiu-se justificado pelas gotas, e olhou para trás como a exigir desculpas dos impacientes. Sim, a previsão estava correta, chovia na capital federal. A água levou embora a última resistência dos impacientes, que afinal também reduziram a velocidade mecanicamente e se contentaram com aquela velocidade baixa. Está prescrito em alguma lei eterna que quando chove em Brasília todos são obrigados a dirigir quase parando.

No final do Eixão já era possível avistar a longa fila de carros, que na altura da Ponte do Bragueto estava completamente parada. Ali ainda não chovia. Mais um acidente, muita gente pensava. Não, pessoal, foi apenas a ameaça de chuva e o chuvisco. 

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