sexta-feira, 4 de abril de 2014

50 anos de quê?

50 anos do golpe militar, ou do golpe civil-militar, ou da revolução de 64. O que quer que tenha ocorrido em 31 de março de 1964, ainda hoje é discutido e interpretado pela história. Julgar um momento pelos anos que se seguiram depois é de certa forma um julgamento falho. Ditadura militar tivemos sim, mas será que foi isso o que se instaurou naquela data?

O mundo estava então polarizado; não se podia ficar neutro em meio à divisão do globo entre capitalismo e socialismo. Tentávamos uma política externa independente, mas a suposta independência se prendia às investidas das potências globais. Uma relação amistosa com Cuba ou com a União Soviética era uma ingenuidade, porquanto tais países não se dariam por satisfeitos até verem eclodir uma revolução comunista no Brasil. A ideologia contava mais do que as transações comerciais.

Esse era o clima da administração de Jango, o que fortaleceu a ideologia da salvação nacional. Uma intervenção militar era necessária para com mão de ferro esmagar qualquer ameaça à liberdade gozada no capitalismo. A imprensa apoiou o “golpe”, a classe média apoiou e o Congresso Nacional apoiou. Golpe militar? Difícil aceitar essa expressão em 1964.

Talvez o melhor nome para a marcha do Exército de Juiz de Fora até o Rio de Janeiro e a deposição do Presidente pelo Congresso Nacional seja “contrarrevolução preventiva”, como muitos falam por aí. Houve ruptura institucional legitimada pelo apoio popular, daí a se chamar revolução. E se deu não para combater um poder concreto, mas uma ameaça, daí a ser preventiva.

É de fato tênue a linha que separa revoluções legítimas de golpes tirânicos. Tome-se o claro exemplo da Alemanha nazista. O que se assistiu com a ascensão de Hitler foi o despertar patriótico do povo alemão ou o inebriamento coletivo de uma geração? Os dois. E no entanto é difícil divisar quando a euforia das massas tornou-se em loucura geral.

O argumento não se presta a justificar os crimes que se cometeram no período militar, mas a espancar falácias que se pregam atualmente: “João Goulart estava fazendo um governo bom para os pobres e por isso os militares vieram e tomaram o poder”. Resposta tola demais para um período complexo. Era um mundo polarizado ideologicamente, havia aqui decerto um flerte com o comunismo, e as potências comunistas tinham mais do que boas intenções comerciais ao olhar para o Brasil. O “golpe” afinal eclodiu em 1964, legitimado pela opinião pública.

Golpe mesmo viria a ocorrer 4 anos depois. Em 1968, com o AI5, deu-se o verdadeiro golpe militar. O apoio político e popular ruiu naquele ano de agravamento de contradições, e a resposta das Forças Armadas veio com a decisão de se manter no governo pela força.

Logo o Ato Institucional inauguraria os anos de chumbo no Brasil, dando início a uma temporada de caça às bruxas. Apenas naquele fim de ano, foram cassados parlamentares, juízes (dentre os quais Victor Nunes Leal, ministro do STF), presos Juscelino Kubistchek, Carlos Lacerda, Paulo Francis, Sobral Pinto, Carlos Castelo Branco, dentre tantos outros.


50 anos – melhor esperar dezembro de 2018.

***

Veja também: 
- 31 de março

Nenhum comentário: