terça-feira, 15 de abril de 2014

Burke e a ilusão das revoluções populares

A raiva e o delírio destroem em uma hora mais coisas do que a prudência, o conselho, a previsão não poderiam construir em um século

As pesquisas eleitorais mostram que sete em cada dez eleitores desejam mudança no cenário político. Além disso, a rejeição à classe política está altíssima. Essa combinação de fatores faz com que se caia na tentação das revoluções. Não revoluções no sentido de guerras sangrentas, mas no sentido de revolucionar toda a ordem antiga.

Volta e meia surgem clamores por uma reforma política ampla, uma nova constituinte, a “destruição do Congresso”, um “atentado a todos os políticos” ou qualquer ação que revolucione a ordem política atual. Em que pesem os extremismos das ponderações, é fácil deixar-se levar por essa vã esperança de que quando o povo acordar, ou quando escrevermos as leis corretas, então tudo será diferente.

Edmund Burke testemunhou a revolução mais ampla, mais inspiradora, e também mais repulsiva de que se tem notícia: a Revolução Francesa. Em 1790, quando a queda da Bastilha e a Revolução completavam apenas um ano, era grande a euforia que tomava conta dos europeus que assistiam estupefatos à tomada do poder “pelo povo”. Parecia que o despertar do povo finalmente daria fim à opressão de estruturas milenares, que as luzes do conhecimento e da razão abririam um caminho de lucidez e emancipação, e que toda a miséria e ignorância seriam solapadas pela construção de uma sociedade justa.

Enquanto as flâmulas tricolores se agitavam por Paris, e em toda França era entoada a Marselhesa, Burke, um cético irlandês, não escondia sua desconfiança com relação àquele movimento popular. Mas o que haveria de errado naquela conquista da liberdade, onde liberdade, igualdade e fraternidade eram bradados com paixão por cada popular?

A Revolução, em sua sana para acabar com o Ancien Régim, escolheu o caminho mais fácil, o da destruição, daí a colocação que inaugura esse texto, dita por Burke em suas Reflexões sobre a Revolução em França. Que há mais fácil que empreender reformas pela abolição e destruição? Não se exige habilidades ou qualificações especiais para tanto.

Para Burke, há valor na tradição política, por mais cheia de vícios que ela possa se apresentar. A ideia é que as instituições políticas transmitem-se às gerações posteriores como herança e legado, de forma que cada geração herda um patrimônio de leis e liberdades e sobre ele executa melhorias, que, por sua vez, serão repassadas às gerações seguintes. Não se trata de cultuar o passado, mas de saber que há um vínculo unindo os dias atuais aos pretéritos, e que não se está a criar institutos a partir do nada.

Quanta ousadia seria desconsiderar tudo o que se fez no passado firmado na arrogância de que apenas a geração presente tem a solução mágica para os problemas da humanidade. Na política, maior é o valor da tradição histórica do que das “teorias de gabinete”.

Conciliar um governo que estabelece a ordem social com a liberdade de cada um é tarefa árdua, que não se fará de repente, com revoluções sanguinárias e planos legislativos abstratos, mas em um longo e lento processo de reforma e aprimoramento das instituições.

O mais valioso das ideias de Burke é que ele as divulgou antes da Era do Terror, o que exprime a validade de suas predições.


E hoje ainda convive-se com a ilusão das revoluções populares, preferíveis às reformas institucionais mais lentas. Em tempos de eleições gerais, não se dê o povo às ilusões das revoluções baratas, que prometem um futuro glorioso destruindo o passado.

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