sexta-feira, 13 de junho de 2014

Começou

A corneta inquietante soprada por algum menino na rua anunciava que mais tarde haveria festa. A impaciência tomava conta das pessoas que só queriam chegar em casa, ou no bar, ou onde houvesse uma televisão ligada. A Copa do Brasil começava como todas as Copas, com aquele clima gostoso nas ruas, com o verde e o amarelo tingindo a cidade, com os brasileiros se unindo para torcer. Parece que toda a decepção com o mundial ficaria para trás quando a bola rolasse.

Mas algo nos fez reascender a revolta e indignação. A cerimônia de abertura trouxe um circo desorganizado do politicamente correto. O Brasil e seus clichês: a natureza, os índios, as danças típicas de cada região. A alegria brasileira deu lugar à monotonia das coreografias, a multidão brasileira foi representada por voluntários dispersos no campo, sem volume, sem emoção. O ápice da cerimônia foi a música oficial sendo tocada por playback. Cláudia Leite tentando competir com Jennifer Lopez nos gingados e Pitbull com um figurino vergonhoso. Deu vergonha a abertura.

Mas Copa não é show, Copa é jogo, e o clima de entusiasmo misturado com tensão logo voltou. Antes do apito soar, Kaká protagonizou uma cena nobre ao cumprimentar os jogadores, Dilma foi xingada agressivamente. Contradições vividas naquele palco em São Paulo, sinais de que as emoções estavam à flor da pele.

Os jogadores entraram, mãos estendidas tocando no ombro do companheiro da frente, um time conectado, levando sobre si a responsabilidade do título, a expectativa de uma geração. O hino entoado à capela por milhares fez pulsar o coração de qualquer torcedor, e emocionou até os jogadores. A Copa tinha começado.

O jogo principiou nervoso, o time ainda se ambientando com o campo que parecia pequeno e congestionado. Estreia de Copa do mundo é sempre nervosa, ainda mais jogando em casa. O gol tinha de sair logo. E saiu, para o lado contrário. A atmosfera de oba-oba deu lugar a uma estupefação trágica. O Brasil começava a Copa perdendo. Os jogadores sentiram a pancada e ficaram alguns minutos desnorteados.

Todos menos um. Aquele que já começou o campeonato com o estigma de herói fez brilhar ainda mais sua sina. Neymar tem estrela, e tem também liderança. O jovem de 22 anos chamou para si a responsabilidade de reavivar o time. Procurou a bola, se apresentou para as jogadas, movimentou-se com desenvoltura. O gol saiu de seus pés, um chute mascado de canhota no cantinho do goleiro. Ufa, a respiração agora era mais aliviada, voltamos à estaca zero, vamos buscar a vitória.

Mais uma vez Neymar. Sem essa de falar que a Copa está comprada com o pênalti do Fred. Jogar em casa tem essa vantagem – pressão na arbitragem, pressão nos adversários. O Brasil deu ao mundo o drible, a finta, e também a malandragem. Fred usou a última, que já é recurso ordinário do futebol.

Por fim Oscar coroou sua bela apresentação com um golaço de bico. O outro menino do Brasil foi um gigante no meio campo. Roubou bola, deu carrinho, cruzou, pensou jogadas e fez seu próprio gol. A possibilidade da substituição deixou o moleque invocado, querendo mostrar jogo. Sorte do Brasil.


No final, a constatação de que aquele velho ‘imagina na Copa’ estava aos poucos sendo substituído pelo ‘lembra na Copa’. A Copa do Brasil havia começado.

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