segunda-feira, 23 de junho de 2014

O Gol

Ofício do atacante, consagração do craque, contabilidade do artilheiro. Quem quer que tenha inventado as regras do futebol não previu que o gol se tornaria mais que um “goal”, um objetivo, seco, mecânico, como mero ponto marcado para se ganhar a partida. O gol virou instituição, com palavra autônoma de significado próprio, vindo a integrar em tão pouco tempo o inconsciente coletivo da humanidade.

É melhor que a cesta ou o ponto. O gol não é vulgar como esses dois; sabe do seu valor e aparece, quando muito, umas sete ou oito vezes por partida. Mas também não chega a ser fatal como o nocaute ou a bandeirada final, o que, afinal, é uma virtude, porque dá sempre a esperança de uma virada. E é, sem dúvida, muito, mas muito mais emocionante que qualquer home run, touchdown, strike ou coisa que o valha.

E vale uma distinção. O gol instituição só existe um, que é o do futebol. Vemos aqui e ali usurpações apenas porque há uma rede presa a balizas. O gol do handebol, por exemplo, esporte dos placares elásticos, do jogo ataque contra defesa, está mais para cesta como no basquete. É o caso do hóquei ou do pólo aquático. O gol banal, frequente, que não enseja dança de comemoração, não merece ser chamado gol, a não ser por deferência com os praticantes de tais esportes.

A instituição a que me refiro é aquela dos gramados, dos estádios lotados ou dos campinhos de várzea. Quando a bola é disparada em direção à meta, e com beleza plástica balança as redes, produzindo uma onda que agita de emoção os jogadores e a torcida, aí sim temos um gol. Fazer gol não é marcar pontos, triste de quem pensa assim. Que o diga Pelé, o rei dos mil gols, que em cada um deles se extravasava em risos e socos no ar. O gol, aquele triunfo momentâneo, a explosão apaixonada de alegria, suscita todo tipo de grito e comemoração. Pode ser o singelo grito de “gol”, o abraço ao desconhecido do lado, o aplauso efusivo, o gesto espontâneo. Nos gramados, gol vira dancinha, acrobacia, corrida maluca, provocação à torcida adversária, abraço coletivo.

Gol é instituição porquanto é a alegoria perfeita do triunfo, da consagração leiga, do êxtase da vitória, e assim passou a compor o imaginário popular e o folclore nacional, seja o gol de final de Copa do Mundo, seja o gol do campeonato da escola. Quem nunca sonhou em fazer o gol decisivo ao menos se viu na arquibancada torcendo pelo gol da vitória.

O gol é tão empolgante porque tendo sempre o mesmo valor no placar alcança cada vez uma emoção única. E não se trata de empurrar a bola para além da linha. O gol é sempre diferente, tem categorias diferentes. O gol contra e o gol de frango talvez sejam os mais feios. O gol de pênalti apresenta-nos o embate entre atacante e goleiro, numa guerra psicológica que se resolve com goleiro para um lado e bola pro outro. Tem o gol de bola parada, obra de pés cirúrgicos; o gol olímpico, golpe da física; o gol de fora da área; o gol que entra com bola e tudo. E acima de todos, o gol de placa, que de tão belo merece ser homenageado e gravado na história com uma placa.

Que o gol seja feito para vencer a partida, trata-se de uma afirmação simplória, que esconde nuanças sutis do futebol. O gol pode ser feito para vencer, sim, mas pode ser usado para humilhar, tripudiar, nocautear o oponente, ocasião quando gol vira goleada. O gol, mesmo que não faça a menor diferença para o resultado da partida, pode ser usado para consagrar um herói. O gol agrega valor a quem o marca, faz uma boa atuação se tornar brilhante, faz um jogador destacado virar craque, um craque virar gênio. O gol também pode ser usado para assegurar a honra e a dignidade daqueles que perdem de cabeça erguida, que sucumbem mas não se entregam.

Além disso, o gol não é passageiro, não se restringe àquela emoção fugaz. Não, ele sobrevive ao menos uma semana, sendo que os bonitos e os históricos permanecem por décadas. Por isso há entre nós necessidade de repercutir, não apenas de comemorar. Trata-se de comentar nas rodas sociais a validade daquele gol impedido, ou do golaço do último jogo. Ver os gols da rodada, assim, é requisito para se começar a semana bem informado, posto que eles ombreiam de igual com a cotação do dólar, o aumento da taxa Selic e qualquer evento político.

Por isso o nosso respeito por quem sabe fazer gol, por quem vela com seus pés essa instituição nacional e faz sair das gargantas o grito instintivo e natural de “Gooool!”.

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