quarta-feira, 9 de julho de 2014

1, 2, 3, 4, 5, 6, 7 – Mineiraço


1. Entramos derrotados

“A batalha é vencida antes de ser dado o primeiro tiro”. A frase atribuída a Napoleão explica bem o que se passou. Quando um time passa a semana lamentando a ausência de um jogador, tira fotos para ele, faz boné personalizado em solidariedade e entra em campo com a camisa dele, a derrota entra junto. A ausência de Neymar deveria fazer o grupo se unir, mas em torno do jogo, da semifinal contra a Alemanha, em busca do objetivo do hexa, e não em correntes de apoio pela recuperação do camisa 10. A postura passiva de um grupo que entrou em campo sem superar a ausência do seu craque seria exposta mais tarde, com a seleção já em frangalhos.

2. Apagão

Mais um apagão, um branco, um desligamento geral, um entorpecimento coletivo. Como explicar os seis minutos e os quatro gols sofridos? Os brasileiros não sabem, os alemães não sabem. Ninguém saberá explicar o que ocorreu no Mineiraço. Nenhuma causa dá uma explicação satisfatória, mas todas elas juntas ajudam a compreender: o descontrole emocional dos jogadores, a ausência de Thiago Silva, o meio-campo aberto, a falta de consistência do time, a desorganização tática.

3. Saber perder

Temos de saber perder. Sim, mas não se trata de aceitar a derrota, e sim de perder em campo honradamente. A última derrota que tivemos em Copa do Mundo foi em 1990, essa que os argentinos adoram lembrar. Em 1998, o mal explicado caso Ronaldinho abalou time, torcida e imprensa, de modo que ninguém sabe o que se deu naquele dia em Paris. Em 2006, uma apatia geral tomou conta da seleção naquele 1 a 0 contra a França. Os jogadores pareciam dopados e não esboçavam reação. Em 2010 e 2014, os apagões. Isso não é desconsiderar a superioridade técnica dos adversários. Eles foram melhores sim, mas o Brasil não foi Brasil. Se a torcida tem que saber perder aceitando a derrota, muito mais os jogadores precisam aprender a perder suando a camisa e fazendo um bom jogo.

4. Humilhação respeitosa

No campo, desastre, vergonha, humilhação, vexame, tudo o que existe para além da derrota. De fato, a pior derrota da história da seleção brasileira. Mas com respeito por parte do outro lado. Há que se louvar e muito a atitude dos alemães. Não fizeram dancinhas de comemoração, não debocharam, não ficaram de firulas. Ganharam só de 7; poderia ser de 15, mas eles não quiseram. Ganharam com classe, na bola, sem provocações.

5. A teimosia dos nossos técnicos

Em 2014 não adianta culpar a imprensa. Sim, eles sempre fazem a crítica oportunista, e mudam de opinião de acordo com o resultado. Mas não dessa vez. Ninguém contestava o baixo rendimento de Fred e Paulinho, o meio-campo esburacado e a falta de um jogador experiente no grupo. Antes do jogo contra a Alemanha, dez entre dez analistas concordavam que se devia reforçar o meio para evitar as ligações diretas. Felipão bancou Fred e seu esquema tático obsoleto. Teimosia. Deu no que deu, e a avalanche de críticas ao treinador é justa.

Teimosia tem sido a tônica dos últimos treinadores. Em 2010 a imprensa era unânime em apontar a falta de opções no banco de reservas e a instabilidade emocional de Felipe Melo. A derrota para a Holanda por 2 a 1 cumpriu o script previsto por todos. O Brasil toma uma virada. Felipe Melo é expulso num lance infantil e a nossa esperança no banco é o atacante Grafite. Dunga afundou junto com sua arrogância. Em 2006, o badalado quadrado mágico de Kaká, Ronaldinho Gaúcho, Adriano e Ronaldo foi vítima de seu próprio estrelismo. Todos sabiam que a preparação em clima de superstar seria prejudicial ao time, mas Parreira gostava dos holofotes tanto quanto os jogadores.

6. A redenção de Barbosa

Barbosa, o goleiro de 1950, foi amaldiçoado após a derrota. Era xingado na rua e discriminado no comércio. Carregou o peso do fracasso durante toda sua vida. E morto passa a bola para a geração de 2014, que terá de amargar o 7 a 1 pelo resto de suas vidas.

7. 1950 foi pior


Apesar de ter sido como foi, 2014 não tem o simbolismo da derrota de 1950. Foi uma derrota doída e vexatória, que nunca será apagada da história. Mas hoje o brasileiro desliga a televisão de plasma e comenta o jogo nos smartphones, vai ao shopping comprar a nova camisa da seleção, com cinco estrelas do pentacampeonato, e planeja uma viagem ao exterior. Em 1950, o Brasil era mera promessa, pura ilusão. E o futebol era o sonho que mais se aproximava da concretude – ser melhor do mundo em alguma coisa. A nação fiou-se nessa esperança, que desmoronou com o gol de Giggia. O trauma de 2014 ficará apenas no futebol. 

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