quinta-feira, 3 de julho de 2014

Por que a torcida do Brasil não tem outros gritos?

Depois que a Copa começou e nossos hermanos da América invadiram o Brasil com sua empolgação, a ficha parece que caiu de uma vez: tirando o “Le-le-le-o, Brasil” e o “Eu sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor”, não temos gritos de guerra para torcer pela nossa seleção. Enquanto isso, argentinos, chilenos e outros entoam canções de nos dar inveja.

Em Fortaleza, quase fomos engolidos pelo coro mexicano, e aí a necessidade de mudar a situação se tornou urgente. Reportagens e campanhas pelas redes sociais tentaram remediar essa carência da torcida brasileira.

Em Brasília, no jogo Brasil e Camarões, pequenos panfletos com cinco novos gritos foram distribuídos aos montes, e o CQC fez esforço para disseminar o seu próprio grito. Em Belo Horizonte, Brasil e Chile, foi a Brahma que se encarregou de distribuir flyers com os gritos. Além disso, nos dois estádios, cada grupo de cinco pessoas tinha seu próprio grito. A agitação das vozes e a vontade de dar certo dava a impressão de que poderíamos reverter a situação. A festa fora do estádio, no entanto, não correspondeu ao que se viu lá dentro, quando se ficou na mesmice do ‘Le-le-o’ e do ‘Eu sou brasileiro’.

Por quê? Ora, trata-se de um problema aonde ações individuais não produzem um bom equilíbrio público. Três argumentos principais podem oferecer explicações.


1.    Problema do Free Rider ou Carona

Em casos de bens públicos, sempre surge o problema do free rider ou carona. O caso é o seguinte: tem-se um bem público que trará benefícios gerais, mas depende do esforço individual. O indivíduo esperto não contribui, mas espera usufruir os benefícios do bem, pegando uma ‘carona’ no esforço dos outros.

O bem público, no caso, é o grito de guerra novo sendo entoado por todo o estádio. Todos querem ver isso acontecer, mas para isso tem de contribuir com suas gargantas. Como os novos gritos ainda não estão bem sedimentados no repertório da torcida, a pessoa não se arrisca a cantar sozinho ou com um grupo pequeno da torcida. Obviamente, todos tentam pegar carona no esforço dos outros, e quando isso acontece, segue-se que nenhum grito novo emplaca.


2.    Falha de Coordenação

Além do problema do carona, há também falha de coordenação. Vamos analisar a situação do torcedor. Ele pode gritar ou ficar calado, apesar de querer que todos gritem em conjunto. Ele pauta sua ação pelo que acha que os outros torcedores farão: se todos gritarem, ele grita; caso contrário, ele fica quieto e não passa vergonha de ser um torcedor maluco.

Temos, então, um equilíbrio não ótimo, no qual todos esperam que os outros gritem e acaba que ninguém grita. Para solucionar os impasses de falha de coordenação, é necessário algum órgão central, como o Estado. No caso dos estádios, o órgão capaz de coordenar a ação dos torcedores em direção ao equilíbrio ótimo seria uma torcida organizada, por exemplo.


3.    Lugares separados

O que poderia fazer as vezes de torcida organizada como órgão de coordenação seria um grande grupo de conhecidos. Suponha que trinta amigos fiquem perto uns dos outros. Entre eles, há coordenação perfeita, pois todos sabem que o outro irá gritar junto. Esse número pequeno, portanto, é capaz de produzir um barulho considerável, que rapidamente se alastra pelo estádio.

Mas como a Fifa só permite apenas quatro ingressos por comprador, o mais comum é que isso não ocorra. Está aí também a razão pela qual torcidas relativamente pequenas, como a do Chile e do México, compitam em volume com a torcida brasileira, infinitamente maior. É mais provável que haja ali um grande grupo de amigos. Mesmo que sejam meros desconhecidos, pode-se supor que os que vão assistir copa do mundo em outro país são torcedores mais empolgados e desinibidos, que conseguem coordenar suas ações rapidamente.

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Como se vê, nossa fraca torcida não se deve ao desânimo ou à falta de criatividade; é um problema econômico complexo. Algumas coisas podem quebrar esse ciclo. Uma sintonia plena e espontânea entre os torcedores, uma campanha ampla por um grito novo (e não vários), e mesmo os processos de aprendizado com os gritos novos. O mais provável é que ocorra a última. Pena que descobrimos isso em plena copa...

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