terça-feira, 26 de agosto de 2014

Educação não melhora a democracia

Existe um mito bastante disseminado que diz que a educação é o segredo para o sucesso ou o fracasso de uma democracia. Um povo educado e instruído, pensa-se, elegerá governantes justos e capazes, que lutem pelo bem comum e não por seus próprios interesses. O contrário também se aplica. Um país tem governantes ruins porque o povo não tem educação necessária, e vira massa de manobra nas mãos de políticos profissionais.

O diagnóstico é aplicado comumente ao Brasil. O senso comum diz ser esse o grande problema do país, e estabelece uma relação direta entre educação, qualidade do voto e qualidade da democracia. O mito aparece forte em época de eleição, e se mostra com aparência de análise política e solução social pronta.

A ideia é antiga. Veio com as engenharias sociais do século XVIII, que tinham na fé democrática o credo da era das luzes. Se o governo do povo era o sistema que traria a redenção da sociedade, caberia a tarefa de educar o povo. Daí nasceu a educação pública.

Já na década de 1940, o economista Joseph Schumpeter cuidou de desmitificar a relação entre educação, democracia e qualidade do governo. Primeiramente, Schumpeter contestou a ideia do bem comum, o ideal que seria perseguido numa sociedade onde todos fossem esclarecidos.

Ora, as sociedades são heterogêneas, e cada qual tem sua ideia do que seja o bem comum (saúde pública universal, impostos reduzidos etc.). Além disso, mesmo que houvesse consenso em torno de alguma proposta, a consecução do objetivo comum também seria alvo de controvérsias (de que maneira atingir o crescimento econômico?). Isso acaba com a pretensa unidade de propósitos do povo, que, por mais unido que seja, pode conviver com clivagens quanto ao que seria o bem comum, ou como atingir esse bem comum.

Mas é especialmente na análise do indivíduo que Schumpeter desmascara o mito da educação. Primeiro, o indivíduo age diferente quando está em grupo, uma vez que o frenesi da massa o compele a agir de forma que ele não agiria individualmente. Essa constatação da psicologia das multidões abre espaço para que decisões irracionais sejam tomadas por um povo instruído (vide o caso da Alemanha nazista).

Em segundo lugar, os indivíduos não têm preferências políticas definidas. Significa dizer que mesmo o indivíduo instruído não sabe ao certo sua opinião sobre os diversos temas do espectro político. A propaganda e o apelo emocional são suficientes para sensibilizar alguém assim, e mais uma vez a educação e a racionalidade se tornam inócuas.

Finalmente, a grande distância entre os interesses individuais e os negócios públicos implica em grande perda do senso de realidade (há dificuldade em apreender e interpretar os fatos relevantes, bem como fazer a conexão deles com os interesses individuais). Essa distância produz ignorância política, que não se deve à falta de educação. Um advogado, por exemplo, no seu ambiente de trabalho, é racional e julga os fatos com precisão, mas quando discute política, o faz de forma superficial, desinteressada, apaixonada.

O cidadão típico, por conseguinte, desce para um nível inferior de rendimento mental logo que entra no campo político. Argumenta e analisa de uma maneira que ele mesmo imediatamente reconheceria como infantil na sua esfera de interesses reais.”

Educação não trará democracias esclarecidas. Esse é um mito que toma como pressuposto um indivíduo racional, que tem preferência política definida, é alheio a pressões externas, e sabe ponderar e analisar o efeito de todos os acontecimentos políticos. Os totalitarismos do início do século XX provaram bem a falsidade desse pensamento.

Educação tem valor próprio. Expande as capacidades individuais, aguça os julgamentos práticos, pode aumentar a produtividade e assim a renda. E sim, uma sociedade com um nível de educação mais elevado é decerto preferível a outra que abriga cidadãos analfabetos.

O erro está em inserir a educação como mero input de uma equação política, que melhora o nível da democracia, e por conseguinte o governo e a sociedade. Educação melhora a sociedade, mas não necessariamente a política.

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