sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Política Externa Independente

Getúlio assumiu o poder em um momento de crise das democracias liberais. Ainda sob os escombros da Primeira Guerra, ouviam-se os ecos da Revolução Russa e sentia-se a vertigem da depressão de 1929. Os debates político partidários e o longo processo de composição de soluções mostravam-se ultrapassado, o que permitiu o fortalecimento do Estado em todo o mundo e o surgimento dos totalitarismos.

Seduzido pela ideia de triunfar tal qual um ditador romano, nosso caudilho gaúcho implantou um regime tendo por inspiração o fascismo de Mussolini. Sua atração pelo Eixo, quando estourou a Segundo Guerra, era óbvia. O General Dutra, que viria a ser o próximo presidente, articulava para que o país se aliasse formalmente a Itália e Alemanha.

Apesar da simpatia ideológica, Getúlio pretendia executar uma política externa independente, sem declarar apoio formal a nenhum dos lados. Mas dono de um faro pragmático, e sabendo para que direção o vento da vitória soprava, apoiou os Aliados em 1943, não sem antes negociar pontos favoráveis aos interesses nacionais. Em reunião com o presidente americano Roosevelt, em Natal, Getúlio negociou o apoio brasileiro tendo como contrapartida o financiamento americano da siderúrgica da CSN em Volta Redonda. O vultoso empreendimento seria o sustentáculo material da indústria nas próximas décadas.

O tema da política externa independente voltaria com força na década de 1960. Num contexto de extrema polarização ideológica de todo o globo, tentava-se aqui uma autoafirmação que rechaçava alinhamentos automáticos. O processo de descolonização da África e Ásia despertava também um sentimento de solidariedade entre os integrantes do chamado “terceiro mundo”, que uniam forças para afastar os traumas do domínio colonial e, por conseguinte, da submissão diplomática aos países ricos.

Nesse ímpeto, Jânio Quadros agraciou os revolucionários cubanos e manteve relações com a China comunista. Jango continuou com o discurso da política externa independente, mas aí a tensão política recrudesceu. O flerte com os países do bloco comunista passou a ser visto como tentativa de instauração da revolução social no país, ou, no mínimo, como ingenuidade diplomática, como se a URSS não estivesse disposta a financiar a luta armada em toda a América Latina. Deu no 31 de março de 1964.

Lula encampou a mística da política externa independente, privilegiando as relações sul-sul. Instalou representações diplomáticas em diversos países inexpressivos, concedeu empréstimos e fez viagens e mais viagens. O terceiro-mundismo surtiu o efeito de colocar o Brasil na liderança dos pobres. Reinávamos soberanos na América Latina e passamos a ter voz nos palcos globais.

Chega-se a Dilma, e a política externa independente transformou-se em uma política externa inexistente. A presidenta nunca escondeu a falta de paciência para as questões mundiais, e abandonou a diplomacia a um estado de inércia negativa.

O gigante econômico fica bem definido como anão diplomático. A irrelevância do país em questões globais, no entanto, fica pior quando a senhora Dilma resolve falar. O discurso funciona sempre na lógica de que o “inimigo do meu inimigo é meu amigo”. Defende-se, então, a ditadura de Chávez, a moratória da madame Kirchner, o reino de terror de Kadaffi e Assad, a intransigência do Hamas e agora a barbárie do Estado Islâmico.

Como Chefe de Estado, Dilma discursou na ONU dizendo que “o Brasil é contra a intervenção militar”. O Brasil, na verdade, envergonha-se de ter alguém com esse discurso falando em seu nome.


Espera-se que a simpatia ideológica da presidenta por ditaduras fique de lado frente ao pragmatismo diplomático e aos interesses nacionais. Que ela aprenda com Getúlio, o admirador do nazismo que não se furtou a fechar um acordo militar com os EUA na Segunda Guerra. Que ela aprenda com Jango que a inclinação ideológica para o lado errado pode custar caro. Que ela aprenda com Lula, e faça ao menos com que sua opção ideológica de política externa traga ganhos favoráveis ao país. 

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