quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Os Estragos da Batalha Eleitoral

O país está dividido. Chegamos afinal num grau de polarização que lembra o bipartidarismo americano, repetido aqui com as mesmas cores, o vermelho contra o azul. Quem quer que vença as eleições no domingo terá de promover suturas políticas e esfriar o clima para governar pelos quatro anos que virão.

O duelo presidencial disputadíssimo converteu políticos em generais, militantes em soldados, e pessoas comuns em integrantes de milícias armadas, atirando a esmo de suas tocaias. Muita gente se feriu. A guerra eleitoral tem fundamentos políticos, frutos das circunstâncias do país, que ficam ainda mais sangrentos com o novo arsenal bélico que são as mídias sociais.

Pelo lado político, o acirramento eleitoral, a disputa voto a voto, estado a estado, revela o desgaste do petismo. Com a liderança carismática de Lula, o país aguentou o mensalão em 2006 e engoliu uma ministra desconhecida em 2010. Vitórias no segundo turno, mas sem essa emoção toda de corrida de cavalo. Os resultados econômicos ruins, no entanto, quebraram a facilidade que poderia ser 2014. A mensagem da mudança, por evidente, já que encampada até por Dilma, deu fôlego à campanha oposicionista, tornando o resultado imprevisível.

E se é no detalhe que o pleito será decidido, os partidos entraram no velho jogo maquiavélico, escolhendo métodos menos por escrúpulo e mais pela eficiência. A possibilidade real de perda de poder pelo PT, poder de mais de década, anima a campanha da desconstrução dos adversários, do terrorismo político, da divisão geográfica e de classes. O vislumbre da retomada do poder pelo tucanato, por seu turno, ascende o desrespeito e o desejo do ataque maniqueísta.

Muito mais que acirrada politicamente, a eleição de 2014 será a eleição da radicalização dos discursos e da cisão ideológica para além do nível do tolerável. Uma divisão que antes não existia ou aparecia pouco agora vai se revelando desestabilizadora nos ambientes próximos – entre amigos, colegas de trabalho, de faculdade e entre familiares. É a guerra da política adentrando territórios novos e tombando vítimas por todos os lados.

Pode-se pensar que o clima tensionado no dia a dia tem a ver apenas com a tensão da disputa de 2014, Dilma contra Aécio. Mas não. Tem componente social que estará presente nas eleições vindouras, as mídias sociais.

A terra livre da internet, dos blogs, dos tweets, do facebook e do whatsapp. De repente, aquele que só tinha ouvidos para o noticiário esportivo vira um analista político, o outro que se aborrecia com as reportagens chatas de economia hoje dá aula de política econômica da história recente, e todos aqueles que esqueceram em quem tinham votado um mês após as últimas eleições agora destilam conhecimento político-partidário em retórica bonita.

Eis a democracia virtual de nossos tempos. Cada um tem na rede um espaço próprio onde reina absoluto, onde fala sobre tudo, onde vira especialista sobre tudo. Talvez sem o artifício virtual, muitos passassem por mais uma eleição sem o menor interesse. Mas se estamos expostos, mostrar algum engajamento político, ainda que fingido, é positivo para a geração do selfie.

Essa talvez a causa de muitas feridas abertas entre gente próxima. Dando voz e o poder de espalhar fatos a pessoas que não têm compromisso com o debate político senão apenas com a aparência de politizados pode ser o estopim de muita confusão. O compartilhar inadvertido de notícias, às vezes irresponsável, às vezes só chato mesmo, os argumentos absurdos a justificar posição política e os ataques gratuitos viram munição nas mãos de incautos, que muitas vezes nem sabem do potencial lesivo dessas ações. E a discórdia é semeada.

Mas se abundam néscios divertindo-se com o paintball eleitoral, a virtualidade também é espaço para soldados conscientes, que posicionam armas e sabem o que tem de conquistar para vencer a guerra. A militância política profissional invade a internet e as mídias sociais. Não apenas ela, mas outros profissionais, como analistas, colunistas e veículos de mídia.

De certo ângulo, essa migração em massa democratiza o acesso à informação e às percepções políticas. As mídias sociais permitem o alargamento do ponto de vista com o bombardeio de análises diferentes sobre o fenômeno político. Ou então revelam em tempo real, nos trending topics, nos memes e virais, a percepção que o público teve de um debate, por exemplo.

E se no nível dos partidos a guerra já é sangrenta, com a pulverização promovida pelas mídias sociais tem-se uma amplificação descomunal do jogo sujo. Assistimos à desinstitucionalização da baixaria.

Vai-se o tempo em que a mídia tradicional tinha a primazia da informação, que editava debates, que mostrava as matérias do seu agrado. A mídia ainda é importante, mas não tem mais o peso do monopólio da notícia. O jogo sujo eleitoral foi agora potencializado pelos compartilhamentos de mentiras, de dados falsos, de manipulações. São e-mails, vídeos de whatsapp, tweets e mensagens de facebook que se espalham tão rápido antes que alguém consiga provar a mentira.

O próximo domingo selará o fim da primeira grande eleição da era do whatsaspp e facebook. Espera-se que independentemente do resultado, não se assine nenhum Tratado de Versalhes, que o revanchismo não domine nem na cena política, nem nas redes sociais.

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