segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Vocação Presidencial

A incrível ascensão e queda de Marina Silva nas eleições de 2014, além de não emplacar a terceira via, representa a volta da polarização entre PT e PSDB, que há 20 anos dominam a cena política nacional.

Obviamente, contribuem para o derretimento da candidatura da acreana seus próprios erros, as trapalhadas com o plano de governo apresentado, a desvantagem no tempo de televisão, a campanha insidiosa e sensacionalista dirigida contra ela pelo PT, e sua imagem frágil. Mas se há algo que tenha ficado claro nessa reta final de campanha foi a falta de fôlego da candidatura Marina Silva.

A disputa entre PT e PSDB no segundo turno mostra que são esses dois partidos os únicos com vocação presidencial. Ambos têm envergadura nacional, imagem consolidada, quadros fortes e funcionam como polos políticos capazes de agregar outros partidos e importantes grupos do país. E isso conta muito.

Além desses dois, o partido que mais ossatura teria para alçar voos nacionais seria o PMDB. É o maior partido do país, que desde a redemocratização tem conquistado a maioria das prefeituras e o comando das casas legislativas. Mas ainda assim não tem capacidade de lançar um candidato à presidência. Apesar da capilaridade em todos os municípios, o PMDB não tem direção nacional estável. Funciona muito mais como um clube nacional de líderes e oligarcas regionais.

O PSB é outro caso. Trata-se de uma agremiação que tem crescido bastante nas últimas eleições. Mas o projeto presidencial de Eduardo Campos foi levado adiante não antes sem rachar o partido. O descolamento da base governista desagradou os irmãos Gomes no Ceará, e com a decisão de se contrapor à Dilma, Cid e Ciro Gomes abandonaram o partido. O racha importante no Nordeste estava sendo contornado pelo pulso firme e liderança de Campos dentro do partido. Mas aí veio a tragédia, e Marina Silva provou que ideias e propostas não sobrevivem sem a musculatura partidária.

A eleição das viradas, como será conhecido o pleito de 2014, mostra a importância da campanha e do partido. Nomes e ideias não bastam para a vitória. As derrotas de Ana Amelia (PP) no Rio Grande do Sul, Paulo Souto (DEM) na Bahia, e Garotinho (PR) no Rio de Janeiro são exemplos do dinamismo eleitoral. É preciso suar a camisa, costurar apoios, acessar a mente do eleitor e se viabilizar como opção viável. E tudo em pouco tempo.

A nível presidencial, o fôlego da candidatura é ainda mais importante. Marina Silva chegou cansada na reta final. Não apenas fisicamente. Toda sua candidatura mostrou sinais de fadiga, de despreparo para lidar com as críticas pesadas, de falta de estratégia para consolidar o voto. O projeto presidencial do PSB começou a naufragar com a morte de Campos. A perda de uma liderança forte dentro do partido não permitiu que esse chegasse unido e forte na reta final.


Lula, referindo-se à queda de Marina, disse que não se constrói uma candidatura de última hora. Constatação correta. A onda Marina Silva durou pouco. O darwinismo político, feito não de virtudes e força social, mas de rasteiras, jogadas de marketing, apelos emocionais, voto útil e pesquisas eleitorais, mostra que os mais fortes resistiram.

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