segunda-feira, 16 de março de 2015

O que foi o 15 de março

O 15 de março de 2015 é daqueles acontecimentos que simplesmente acontecem. Apesar de predito, foi subestimado; e agora que existe, seu futuro é imprevisível. As imagens que chegavam de longe como que uniam o país em um só protesto, até alguém se dar conta de que se tratava da maior manifestação popular da história do Brasil. Como explicar para a posteridade a origem da mobilização popular que tomou um chuvoso domingo de março?

Pode parecer simples, mas não é. E nisso é significativo as características gerais dos protestos: a bandeira do movimento foi a brasileira; a organização, espontânea; o local, todo o país. Se a pauta era vaga demais (contra a corrupção), ou específica (fora Dilma e PT), ou contraditória (intervenção militar), o fato é que ela arregimentou quase dois milhões de brasileiros em todo o país.

Exaurimento da Nova República

Aos poucos, a geração que viveu e lutou contra o regime militar vai deixando o poder, e com ele sua agenda política. A redemocratização aconteceu numa grande composição das lideranças militares e da sociedade civil, forçando acordos improváveis mas necessários. O pacto político da Nova República consistiu nessa reunião de opostos em torno de um centro comum, criado pelas circunstâncias históricas e por isso intransponível. A Nova República forjou uma aliança entre o novo e velho, entre o clientelismo autoritário e a impulsão democrática, numa dialética pacífica que produziu parcerias como as de Tancredo e Sarney, Fernando Henrique e ACM, Lula e PMDB.

Aliás, a transição das instituições de maneira incremental e segura, por meio da composição de amplos acordos nacionais, é marca da história brasileira. Foi assim com o fim da escravidão e com a proclamação da República, por exemplo. A redemocratização de 1985 foi outro momento em que a vocação brasileira para os grandes acordos e a diplomacia produziram inflexões do sistema político. Esse nosso jeito de fazer mudanças tem o valor de evitar grandes instabilidades populares e o derramamento de sangue, mas o preço que se paga é um longo período de transição aonde o moderno e o arcaico coexistem. O que se vê agora é que os políticos da velha geração, do governo militar, aos poucos vão deixando o poder, mas a Nova República, esse período de transição entre ditadura e democracia, é um modelo político já exaurido.

Ditadura, terceiro mundo e subdesenvolvimento – essa foi a realidade contra a qual lutou toda uma geração política. Sarney deu-nos a Constituição e Collor promoveu a contragosto o teste político das instituições. FHC consolidou a economia e estabilizou a moeda. Lula incluiu o discurso social nessa equação política da Nova República. E Dilma tenta seguir as marcas de seu antecessor. O que se percebe é que a pauta dessa velha geração foi esgotada. Consolidação democrática, estabilidade econômica e inclusão social – e os três grandes alicerces foram lançados.

A questão agora é saber o que será daqui para frente. Como avançar, ou criar um modelo político para um país de classe média? Como achar lideranças novas? Como alcançar a governabilidade sem o custoso preço do fisiologismo? Como falar a uma geração que não acredita em partidos mas quer o engajamento político?  

Esse momento incerto, permeado de dúvidas, parece ser o exaurimento do período transitório da redemocratização. O próprio enfraquecimento do PT e a repulsa ao PMDB indicam isso. Ícones da luta contra a ditadura, os dois partidos habitam hoje a vala comum do desprezo público, ou ao menos da desconfiança no caso do PT.

O velho governo novo de Dilma parece apontar para o fim do ciclo petista, e por isso a autofagia que contamina a política logo após as eleições gerais. Mercadante tenta despontar, Lula o puxa para baixo, Cardozo e Rosseto apresentam-se como fiéis escudeiros, e a expectativa de 2018 já fragiliza a composição de acordos. Enquanto isso, a militância petista, aquela cheia de ideais extemporâneos, de luta a favor do povo, assiste o povo se mobilizar num silêncio covarde, arrogante e exclusivista, do tipo “ninguém, senão a gente, pode protestar em nome do povo, nem o próprio povo”.

Nova política

Marina Silva tentou ser a “voz das ruas” e a mãe da nova política, mas nem ela sabia explicar bem o que era essa nova política. Pois a nova política já existe e não tem dono. É a política desse milênio, da globalização e das interações sociais, da tecnologia e de uma geração que aprendeu a emitir opinião em 140 caracteres sobre tudo, ou produzir virais e memes sobre qualquer aspecto da vida. É a política sem partido e sem sindicato. Igualmente, a mídia já não tem o monopólio da informação, que se espalha descentraliza na velocidade incalculável das curtidas e compartilhadas.

O movimento de junho de 2013 marcou o início desse novo momento. Aglomerações e protestos espontâneos, marcados pelas redes sociais, sem lideranças claras. Repudiando partidos ou qualquer outra instituição que quisesse se apropriar do protesto. As eleições de 2014 continuaram essa nova forma de envolvimento e de acirramento nas redes sociais. Chegamos em 2015 e o panelaço dá a tônica de que será um desenvolvimento contínuo dessa nova maneira de expressar-se politicamente.

O desafio é canalizar essa indignação disforme, e transformá-la concreta por meio de uma nova representação política. Curioso que os ícones da nova política são justiceiros, não políticos: Joaquim Barbosa e Sérgio Moro. As lideranças partidárias tradicionais são vistas com desconfiança. Quem entender o que acontece nesses novos tempos poderá sair na frente.

Tentação dos idealismos ou dos radicalismos

Para os mais afeitos a revoluções sociais, o movimento popular pode parecer o começo da derradeira mudança. “O gigante acordou” encanta os que são seduzidos por esse tipo de discurso. Achar que protestos farão do Brasil um país sem corrupção ou que a reforma política será a chave para o desenvolvimento político e social são tentações prováveis. Deve-se, no entanto, repeli-las pela simplicidade tola com que enxergam a realidade.

O lado radical também é outra tentação. Impeachment e intervenção militar são bandeiras levantadas no protesto. A volta dos militares é ilusão fantasiosa do passado, como dos negros que pediam a volta da monarquia. Vide a “aprovação” da ditadura pelo congresso venezuelano justamente ontem, dando poderes ilimitados a Nicolás Maduro.

Já o impeachment ganha força, mas deve ser igualmente rechaçado no momento. Governo ruim não dá azo a impedimentos. Para isso existem as urnas e as eleições gerais. O custo da democracia é aceitar o governo da maioria, ainda que a minoria seja formada por 49% da população, como agora. Impeachment por más decisões políticas ou má gestão é um risco institucional muito grande, porquanto permite que maiorias eventuais ou a massa popular precipitada possam derrubar as regras do jogo democrático. O gradualismo das mudanças institucionais é melhor que a afobação das rupturas. O momento é de cautela, aguardar os desdobramentos da Operação Lava-Jato e ver se há razões plausíveis para condenar a presidente por crime de responsabilidade.

O discurso do impeachment, no entanto, tem o mérito de aguçar os olhos da população para o governo. De fato, o impeachment será um fantasma que rondará todo o governo Dilma promovendo maior responsabilização política de suas ações.

O que muda

O governo correrá para lançar uma agenda positiva. Pacote anti-corrupção e reforma política serão logo sacados, junto com qualquer outra medida popular, como foi com o Mais Médicos em 2013. O Congresso também vai querer mostrar serviço, tentando empurrar a crise para a Dilma. A sintonia de Cunha e Renan pode produzir medidas explosivas.

Pepe Vargas será demitido da articulação política e Mercadante perderá força. A oposição vai acompanhar com cautela a evolução dos protestos, sabendo que de certa forma atinge toda a classe política.

Outras manifestações serão marcadas, e a liderança dos movimentos começará a ser reivindicada. Dilma perde força, a rejeição ao PT aumenta, e a crise política se agravará.


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Veja também:

- A 54ª Legislatura: A Câmara
- A 54ª Legislatura: O Senado
- Os Estragos da Batalha Eleitoral
- Burke e a ilusão das revoluções populares

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