quinta-feira, 16 de abril de 2015

As grávidas

Nossa inclinação democrática é rápida em anunciar que todos são iguais perante a lei e que, portanto, a humanidade nivela-se num mesmo patamar de valor. Ainda assim, é unânime o estabelecimento de certas escalas de importância: mulheres, crianças, idosos, doentes... Mas nas hierarquias humanas, não há nada que supere o valor de uma grávida.

Se cada vida humana vale a mesma coisa, a da grávida vale por dois – por duas vidas, ou tantas quanto pulsarem dentro dela. O cuidado com as grávidas é daqueles universal e antigo, como se toda a família humana já nascesse com a reverência natural às futuras mães. O próprio Jesus mostrou uma preocupação especial com as grávidas, antevendo os dias da grande tribulação: “Como serão terríveis aqueles dias para as grávidas e para as que estiverem amamentando!”

Uma barriga grande parece ter o poder de atrair a solicitude alheia e derreter a frieza dos carrancudos. Antes que a grávida chegue, todos se levantam e a oferecem seu lugar; oferecem-na cadeira e água; dão a preferência nas filas; aceleram a execução dos serviços; abrem exceções e a cercam de cuidados (e quem não o faz, é certamente repreendido com olhares). Diante das grávidas, homens se tornam cavalheiros e mulheres leais; não por cumprirem leis, regras de etiqueta ou convenções sociais, mas por obedecerem a um imperativo inato.

As grávidas possuem tamanha estima que vontades caprichosas tornam-se ordens inquestionáveis. A coisa é generalizada. Tem grávida que passa muito mal, tem outra que come como um leão, tem grávida que dorme o tempo todo, mas todas elas têm os tais dos “desejos”. Lenda popular ou necessidade do corpo? Melhor não arriscar... Na dúvida é melhor comprar kiwi no meio da noite do que ser acusado de negar o desejo de uma grávida.

Impossível não dividir o elevador com uma grávida sem deixar de olhar para o mistério daquela barriga e depois abrir um sorriso simpático. Impossível não repetir esse ritual nas filas, ou em qualquer outro lugar onde se encontre uma grávida. A gravidez torna o contato humano mais fluido, como se houvesse algo nas grávidas que atraísse conversas.

De fato, as frases iniciais da conversa já estão prontas, é só escolher uma e travar diálogo: “menino ou menina?” “quantos meses?” “é para quando?” “como vai se chamar?”. E além da facilidade em quebrar o gelo, a própria condição da gravidez é de tal modo inspiradora de atenção que parece arrancar palavras dos tímidos e sorrisos dos ranzinzas. Há mesmo uma aura de afabilidade na visão dessas mulheres-canguru que impele ao sorriso espontâneo. Seja pelo fascínio da gravidez, seja pela vulnerabilidade das grávidas, o fato é que elas contam com a simpatia de todos só por estarem grávidas.

Mas há nesse cuidado todo um efeito colateral. Barriga de grávida se torna patrimônio público. A distância que separa homens e mulheres, conhecidos e desconhecidos some quando se trata de gravidez; a intimidade do próprio corpo desvanece conforme desponta a barriga. Alisar a barriga de uma grávida vira hábito corriqueiro como afagar um cachorro. Por serem atraídas pela gravidez e quererem de alguma maneira participar do processo, as pessoas se acham no direito de extrapolar a intimidade que de outro modo jamais seria violada. Mas não se deve esquecer que barriga de grávida continua sendo parte do corpo da mulher grávida. Deve-se respeitá-lo.

E não apenas respeitar, mas reverenciar o mistério da gravidez. A violência de outro ser crescendo dentro do próprio corpo, a sublimidade de gestar uma nova vida, e a beleza etérea e sinuosa que decorre dessa fusão. Quanta formosura nessa poesia estampada no corpo da gravidez. Corpo que muda e se sacrifica, que comprime órgãos, estica músculos, perde o equilíbrio, bagunça o sono, o apetite, os hormônios. E afinal desabrocha como um fruto da renovação da vida.

A barriga que cresce é mais que informação sobre os meses que transcorrem, é um símbolo metafísico que coloca em perspectiva a humanidade diante de Deus, o presente diante do tempo. A grávida leva consigo, ao mesmo tempo, a humanidade se refazendo e Deus trazendo um novo ser à existência; famílias se multiplicando e o artesão divino modelando com arte a nova vida. A grávida tanto carrega sua própria temporalidade quanto traz o futuro para o presente, mostrando-nos, já agora, a realidade de uma vida por viver.


Que mistério é essa afinal? Uma vida dentro de outra vida, corpos que dividem o mesmo espaço. A gravidez é esse processo enigmático, esse milagre do qual todos nós um dia fizemos parte. Por isso as grávidas habitam no topo das hierarquias humanas, nossa mínima reverência e reconhecimento a elas.

Nenhum comentário: