quinta-feira, 6 de agosto de 2015

A ilusão dos concursos públicos

A preferência pelos cargos públicos não é nova nem é novidade no Brasil. A inclinação aos braços do Estado já foi denunciada, por exemplo, por Sérgio Buarque de Holanda e Lima Barreto no início do século XX, portanto há mais de cem anos.

Duas coisas mudaram, no entanto, a partir de 1988. A nova Constituição estabeleceu a obrigatoriedade de concurso para o preenchimento de todos os cargos, bem como assegurou a estabilidade funcional aos servidores públicos. Deu-se um enorme passo em direção à democratização social, deixando-se para trás o nepotismo, o clientelismo e também o arbítrio, marcas de nossa história.

No entanto, as garantiras jurídicas vieram a exercer outros impactos sociais. Hoje em dia, toda uma geração foi criada sob os auspícios dos editais e a rotina dos cursinhos. Aos poucos, a 8.112 fez mais do que garantir estabilidade e bons salários, ela moldou comportamentos e formas de enxergar o mundo.

Brasília, a capital da República e sede de todos os órgãos federais, tornou-se um viveiro de concurseiros. Os cursinhos viraram ponto de referência; os professores transformaram-se em heróis do sucesso; os coaches, em terapeutas. O êxito pessoal é medido pelo órgão de trabalho.

E é nessa atmosfera de constitucional e administrativo, de psicotécnico e cadastro de reserva, que se vende uma ilusão, uma promessa vã capaz de seduzir toda uma geração para uma armadilha perigosa: chegar ao topo é uma questão de horas de estudo e disciplina. Não é. Há também outros fatores, e o principal deles é a capacidade intelectual, mas pode-se acrescentar o controle emocional, a técnica para fazer as provas, e, claro, o fator “sorte”, de cair apenas o que se estudou, ou do nível dos outros concorrentes.

A democracia dos editais grita alto seduzindo estudantes de todas as matizes, falando que só depende deles, que se trata de uma luta contra si mesmo, que basta vencer todo o conteúdo que a vaga é garantida, que nada é impossível para quem se dedica. Mas a vida não é justa com a dedicação, e às vezes o máximo do esforço pessoal ainda fica aquém do necessário.

William Douglas e Granjeiro falam o que todos querem ouvir, mas não, nem todos irão passar no TCU, nem todos serão analistas judiciários, e não é questão de persistir e esperar a sua vez. A igualdade do acesso não torna os concursos públicos alheios à realidade da vida; eles são, como todas as outras coisas, mais complexos do que a lógica dos discursos motivacionais para encher cursinhos. Debaixo do sol, “os velozes nem sempre vencem a corrida; os fortes nem sempre triunfam na guerra; os sábios nem sempre têm comida; os prudentes nem sempre são ricos; os instruídos nem sempre têm prestígio; pois o tempo e o acaso afetam a todos”.
                                                           
O fato de que nem todos chegarão ao topo não significa a aceitação do fatalismo ou de uma restrição elitista. Mas se pensamento positivo e dedicação bastassem para o sucesso, as coisas seriam mais fáceis. E o resultado dessa promessa vendida vem em forma de frustração, descontentamento e até depressão.

Batalhar para melhorar de vida é louvável, o problema é quando essa batalha se torna uma luta incessante – e frustrante – para apanhar o vento. Ora, todos lidam com o conflito entre contentamento e acomodação – saber quando a boa aceitação de uma situação constitui um comodismo que impede de seguir em frente e quando constitui um modo feliz e agradecido de levar a vida. O que a geração dos concursos tem perdido é a capacidade de se contentar.

À medida que a aprovação para o cargo sonhado não vem, o cargo atual parece um fardo temporário que só será superado pelo estudo. O salário que se ganha pode até ser razoável, as pessoas do órgão podem até ser legais... mas como descansar se naquele outro órgão ganha-se mais, como ser feliz se o acesso a um cargo melhor só depende de si? E nessa insaciedade concurseiros e concursados vão levando a vida, estudando, passando, tomando posse e olhando sempre adiante, como se avançar na vida fosse questão de galgar até o topo do funcionalismo.

E de repente, na rotina acelerada dos estudos, muitos se dão conta de que vincularam seu bem estar e sua felicidade aos cargos públicos. Pior, a maioria nem se apercebe disso. Mas acontece. Passar num bom concurso vira panaceia para todos os males.

O indivíduo se desentende com o chefe, tem uma crise conjugal, se aperta nas finanças, se desaponta com a própria vida, e vai procurar o concurso público para resolver todos os seus problemas. Não se cogitam outras saídas: amadurecer profissionalmente, buscar a paz em casa, cortar gastos supérfluos, lidar de frente com o drama da existência. Qualquer alternativa fica em segundo plano. Mais uma vez, o grito sedutor dos editais fala mais alto, dando a entender que a felicidade está à distância de uma aprovação no cargo ideal.

E onde termina essa corrida desesperada? A nova geração ainda está encontrando seus limites. De técnico à analista, do Judiciário ao TCU, de lá até Consultor, e depois Prático ou Tabelião. No caminho, muitos casos de frustração dos que ficaram na base da hierarquia dos cargos, muitos casos de depressão dos que chegaram em cima e viram que ainda não era o bastante.

Concursos públicos foram uma conquista inegável, e constituem excelente oportunidade de trabalho. Mas distorcem valores e trajetórias pessoais quando a vida passa a ser medida pelos vencimentos, cronometrada de acordo com os editais e seduzida pela felicidade garantida da estabilidade. É o mal que tem acometido grande parte da geração 8.112.

6 comentários:

Unknown disse...

Muito rica e atual essa reflexão!

Anônimo disse...

ISSO QUE O SENHOR ESCREVEU É VERDADE! COM CERTEZA, MUITO FRUSTRANTE.

Anônimo disse...

primeiro aos 19 anos fiz policia militar e corpo de bombeiro, mas devido a minha miopia muito alta reprovei no exame médico de ambos.
depois entre 24 a 34 fui participando de todos os concursos de 2 grau da acadepol de sp escrivão, investipol, agente de telecomunicações, papilocopista, atendente de necrotério, auxiliar de necropsia enfim todos menos perito, e depol que sempre foram nível 3 grau, reprovei em todos a maioria na 1 fase. vi meus irmãos se formarem, casei, sou pai agora em 2016, gastei mais ou menos dez mil reaia entre material de apoio{livros e apostilas, vídeo aulas, inscrições e cursos preparatórios, hoje tenho 37anos e não sou formado em nada e nem cheguei a tomar posse em concurso algum.

Anônimo disse...

Continue tentando, intensifique seus estudos. Também estou nessa. Se não der: vida que segue. .. Vou dar o melhor de mim, se não der, vou aceitar q isso não é p mim e procurar outros caminhos..

Anônimo disse...

anônimo do dia 24 de julho, também penso a mesma coisa, se eu não passar posso morrer tentando. A ideia é não desistir.

Google+ disse...

Amigo do 17 de novembro,

Não desistir de quê? (Pergunto isso numa boa)

Não desistir de preços absurdos (não é exagero nenhum)???

EUA e Europa NÃO são baratos, o Brasil que é caro demais. Não existe absolutamente nenhum exagero nessa afirmativa.

Com 5 dólares nas Filipinas compro um almoço para 2 pessoas em restaurante mediano. Aqui no Brasil, é Milk Shake e batata frita em lanchonete. E olhe lá, vai depender do tamanho.

Não desistir de financiar governos corruptos? Não obrigado. Prefiro "desistir" mesmo :)

Não desistir da possibilidade de morrer a qualquer momento nas ruas?

Quem nunca foi assaltado pensa que é frescura ou exagero dizer que o Brasil é altamente violento.

Para você que nunca foi assaltado,....

Você é uma alienado. Isso mesmo, você é alienado por acreditar que o Brasil não é tão violento como mostra a TV (é sim senhor).

Melhor sair do Brasil, mesmo que ganhe pouco e trabalhe mais (o que nem sempre é o caso).