segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Paraísos e doenças tropicais

Há uma geração por nascer que sofrerá as consequências ainda incertas do zika vírus. Pobres crianças com dificuldades motoras e de aprendizado. A guerra à primeira vista parece impossível. Deter mosquitos no verão de um país tropical parece tão improvável quanto conter a proliferação de ratos na sujeira de uma Europa na idade média.

Se laboratórios, ministros da Saúde, a mobilização de governos e toda a tecnologia do século ainda são incapazes de conter a epidemia em 2016, é de se espantar como deveria ser a vida nos trópicos em tempos passados.

Não precisamos ir tão longe. Maranhão, meados da década de 1960: a média de vida da população era de 29 anos. Cerca de 25% das pessoas era atacada pela malária; 86% pela verminose. O quadro era alarmante não apenas em decorrência da pobreza, mas também pela incidência constante de doenças e pragas que assolavam a população e criavam um círculo vicioso de miséria.

Retrocedendo um pouco mais no tempo, o que se esperaria encontrar no interior do Brasil, senão homens e mulheres cuja vitalidade ia se esvaindo dia a dia, roída pela doença, ou crianças com atrasos no desenvolvimento e dificuldades de aprendizado.

Tanto é assim que a saúde e o intelecto precário dos milhares de sertanejos que povoavam o interior do Brasil eram matéria-prima para sustentar teorias de racismo científico. O problema do brasileiro, diziam muitos, era a mestiçagem. O mestiço era um tipo humano inferior, pálido, baixo, fraco e de baixa capacidade intelectual.

Foi Gilberto Freyre uma das primeiras vozes contundentes a tirar da raça o que era um problema da natureza tropical. Para ele os grandes culpados eram a sífilis e a má nutrição: “de todas as influências sociais talvez a sífilis tenha sido, depois da má nutrição, a mais deformadora da plástica e a mais depauperadora da energia econômica do mestiço”.

Já se disse uma vez, nesse caso mirando as pragas agrícolas, que ou se acabava com a saúva, ou a saúva acabaria com o Brasil. A assertiva do momento é outra, mas também envolve bichos tropicais: ou o Brasil acaba com o aedes, ou o aedes acaba com o Brasil.


Eis os inconvenientes de uma vida nos trópicos. Calor, chuvas, umidade e uma grande proliferação de doenças e epidemias, como a malária, a febre amarela, a dengue e agora o zika. A ideia de um paraíso tropical é contrabalanceada por essas pragas da natureza, que encontram solo e ares férteis para sua disseminação.  

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