terça-feira, 15 de março de 2016

Idos de Março

Em 15 de março Júlio César foi assassinado no Senado romano. O ano era 44 a.C., e César havia sido informado que os senadores desejavam coroá-lo rei. Movido por sua ambição, o ditador compareceu à reunião, onde foi apunhalado 23 vezes e morreu.

A conflagração dos patrícios romanos, entretanto, não teve o efeito esperado. A morte de um líder popular como César, mesmo que autoritário e contrário aos ideais da república, colocou a população contra os conspiradores. O general e o sobrinho de César se encarregaram de dar cabo aos senadores. Na disputa pelos espólios do poder, Otávio venceu Marco Antônio, e ali se encerrava a república e se inaugurava o império romano.

Estamos nos idos de março de 2016, e, coincidência da data ou não, paira no ar um clima de conflagração política. As ruas estão agitadas, os políticos estão apreensivos, e o futuro parece incerto. Ninguém sabe como terminará o ano. Mas vamos com calma. Dilma não é César e o Congresso não planeja um atentado para apunhalá-la. A analogia histórica é útil para analisar como as sociedades se comportam em momentos de crise.

13 de março

A plebe brasileira, no caso, não demonstra simpatia pelo governo atual. Pelo contrário, disse bem claramente o que desejava no domingo, dia 13 de março. Os jornais erram ao falar que foi a maior manifestação popular contra o governo Dilma, superando aquela ocorrida em 2015.

As manifestações do dia 13 foram as maiores da história do Brasil: nunca antes na história desse país! Sem a ajuda de sindicatos, partidos ou qualquer instituição com poder de organização, os protestos foram espontâneos. Irônico o fato de que o PT, o partido do povo, tenha sido alvo de tamanha insatisfação popular.

Talvez até tenham sido as maiores manifestações políticas da história mundial. Difícil achar quando, em um só dia, em centenas de cidades, numa extensão de oito mil quilômetros, mais de três milhões de pessoas tenham saído às ruas para protestar por uma causa comum. A Marcha para Washington, por exemplo, reuniu cerca de 250 mil pessoas.

14 de março

Na ressaca do protesto, na segunda-feira dia 14, os atores políticos em Brasília tentavam interpretar os fatos e calcular cada movimento.

Os governistas tentaram explorar ao máximo as vaias recebidas por Alckmin e Aécio. Lindbergh, Gleisi e Vanessa afirmaram da tribuna do Senado que os protestos foram expressivos, mas que foram apartidários, dirigidos contra toda a classe política. Não foram. Foram contra Dilma, Lula e o PT, mas isso não quer dizer que quem deseja a saída de Dilma queira necessariamente a entrada de Aécio.

O centro peemedebista declarou-se independente. Romero Jucá falou logo no início da tarde, informando ao Senado sobre o sinal amarelo dado pela convenção do PMDB. Reclamou que o partido não tem sido ouvido na condução da política econômica e que foi escanteado na condução política. Ressaltou as qualidades de Temer, como que o apresentando oficialmente como a solução da crise política.

No plano da oposição, Cássio Cunha Lima, escudeiro de Aécio, rechaçou as propostas de mudança do regime de governo, solução menos traumática para o impasse político. Quer a cassação da chapa Dilma/Temer e a realização de novas eleições. Pode causar um racha no ninho tucano, já que José Serra é um entusiasta a favor do parlamentarismo.

Na Câmara, Cunha pediu o auxílio dos líderes partidários para, tão logo saia a decisão do STF sobre o rito de impeachment, movimentar o processo. Para completar o dia, a juíza de São Paulo enviou o processo de Lula para o juiz Sérgio Moro, em Curitiba.

15 de março

Diz-se que César, vendo-se traído por seu companheiro íntimo, bradou o famoso: “Até tu, Brutus?”. No jogo político brasileiro pode ocorrer o inverso. Foi Dilma quem entregou o punhal a seu amigo próximo, sabendo que se Lula aceitar o convite para o ministério selará a morte política da presidenta.

Toda Brasília despachará com o ex-presidente, que se tornará como que um primeiro-ministro. Dilma prefere ser um corpo morto no palácio, ferido por seu próprio mentor político, do que correr o risco de ser expulsa do poder pelo povo ou pela justiça.

Mas tirando pelo autoritarismo e pela presidência, Dilma pouco pode ser comparada à César, que está mais para Lula. O general romano conquistou a fama após passar dez anos pilhando a Gália e distribuindo os despojos ao povo de Roma. Se tornou bastante popular entre as classes mais baixas e foi eleito tribuno da plebe. Após destruir seus inimigos, César instituiu um culto a si próprio e fez o Senado declarar-lhe ditador vitalício. Mas queria mais, queria a coroa e o domínio inconteste de todo o império. Sua ambição foi sua ruína.

Lula também já foi popular entre as classes mais baixas. Dividiu licitamente os recursos do Tesouro em programas sociais, e agora se sabe que também de maneira ilegal. Sua arrogância está se tornando folclórica, a “alma mais honesta do país”, o “pai dos pobres”, o “melhor presidente da história”. Não foi preciso uma conspiração do Senado para demover-lhe de sua ambição, pois as ruas já mostraram a ele que o “ditador vitalício da república brasileira” perdeu grande parte de seu prestígio.

A república brasileira, como a romana, oscila fragilmente diante da crise instalada. Aliás, a sedição de Catilina já inspirou o nome de uma operação da Polícia Federal, contra Eduardo Cunha, no âmbito da Lava-Jato. Nas Catilinárias, Cícero exclamou: “Até quando, ó Catilina, abusarás da nossa paciência?”.

Guerra Civil

O povo romano estava desacreditado com os patrícios do Senado, assim como o povo brasileiro expressa repulsa pela classe política. Há de se lembrar que foi justamente ali que a república de Roma sucumbiu ante à força dos imperadores.

Por isso, o momento é de cautela, evitando-se um acirramento da polarização política. Cautela, porém, não significa deixar de punir a injustiça ou deixar de se processar um pedido de impeachment. Significa entender a gravidade do momento e os riscos de decisões equivocadas.

Se a Lava-Jato for até onde deve, poderá simplesmente implodir o sistema partidário brasileiro, criando o ambiente propício para aventureiros e demagogos. Se Lula se tornar ministro e implantar sua política econômica heterodoxa, a crise pode se transformar em profunda depressão. Se o impeachment prosperar, pode polarizar o país e trazer o risco de uma venezuelização. Se nada for feito, o país assistirá inerte à corrupção reinando e o impasse político minando possíveis soluções.

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