segunda-feira, 18 de abril de 2016

A grande derrota da esquerda

A abertura do processo de impeachment contra Dilma nesse histórico 17 de abril de 2016 tem muito a dizer sobre a história e a política brasileira, especificamente sobre a esquerda e o PT.

Divórcio entre o PT e a classe média
A constatação mais evidente é que o PT perdeu o apoio da classe média. Antes de chegar ao poder em 2002, o Partido dos Trabalhadores simbolizava a luta pela ética na política e pelo interesse dos trabalhadores, e por isso tinha o apoio ou pelo menos a simpatia de boa parte da classe média brasileira, que não se deixava seduzir nem pelos arroubos revolucionários de partidos mais radicais nem pelo jogo político tradicional dos partidos conservadores.

Pois as maiores manifestações políticas da história do Brasil vieram dessa classe média desiludida com as promessas e a corrupção petista. É preciso atentar bem para esse fato e observar os manifestantes: não são militantes partidários (vide as vaias aos políticos de oposição na Av. Paulista), nem institucionalizados (a mobilização dos protestos foi espontânea) ou tampouco dividem a liderança com políticos tradicionais (Aécio e Marina foram completamente escanteados do processo).

O fato é que o discurso petista não pega mais na classe média, a não ser para os poucos militantes que ainda permanecem atrelados ao partido como a uma religião. Pessoas que recentemente defendiam apenas ideias, legados sociais e conquistas do povo, e que hoje defendem homens. Pessoas que acusavam a corrupção e hoje limitam-se a apontar a hipocrisia.  

Completa-se o ciclo da esquerda
Com Dilma, completa-se o ciclo da esquerda no poder. Perseguida no período militar, a esquerda dominou toda a política pós redemocratização. Nem o PCB (hoje PPS) nem Leonel Brizola assumiram o papel que se esperava deles após Sarney, mas mesmo assim outras figuras da esquerda assumiram protagonismo no mundo político.

FHC foi a esquerda universitária e intelectual que assumiu a presidência em 1994, modernizado o Estado e acabando com o “imposto inflacionário”. Mas a social democracia do PSDB, em aliança com o PFL, encampou um projeto neoliberal, deslocando-se muito para o centro e traindo sua ideologia original. Era preciso mais.

Lula foi a esquerda operária, pobre e trabalhadora que tomou o poder em 2002, e consolidou de vez o discurso social na voz dos políticos. Não obstante os avanços sociais, a ausência de reformas estruturais, o lucro dos bancos, a aliança com partidos fisiológicos, o mensalão e o discurso mais moderado mereceram a crítica de diversos petistas, muitos dos quais saíram para fundar o PSOL. Ainda assim, era um projeto que merecia ser continuado...

E então veio Dilma, e a esquerda armada e revolucionária chegou ao governo do Brasil em 2010. Dos três, foi o mais esquerdista. Levou adiante a “nova matriz econômica”, seguindo a diretriz ideológica de baixar juros, aumentar o gasto público e promover a política dos “campeões nacionais”. Os resultados falam por si.

FHC, Lula e Dilma, e o ciclo da esquerda chega a um fim melancólico. A cada novo presidente, uma guinada cada vez maior à esquerda, até esse ciclo ser brutalmente interrompido por uma avassaladora crise econômica e política.

Desmoronamento do projeto petista
O provável impeachment de Dilma é resultado mais de um completo desmoronamento do projeto petista do que de um ataque da oposição. Aliás, que oposição? Aécio Neves? José Serra?

A oposição foi quase irrelevante nos treze anos do governo petista. Tirando a derrubada da CPMF em 2007, em nenhum momento ela fez frente ao governo nem conseguiu apresentar um projeto alternativo e consolidado de poder. Tanto assim que o protagonista do impeachment não é a oposição, e sim o antigo parceiro de chapa PMDB e o vice Michel Temer.

O fato é que pouco a pouco o PT foi se tornando tudo o que condenava: corrupto, antiético, populista e fisiológico. O grand finale dessa metamorfose política veio com a campanha de 2014, quando a propaganda do medo e o jogo baixo completaram o ciclo de transformação petista em um partido tradicional com aspectos de organização criminosa.

A perda do apoio da classe média e a arrogância de que só o PT pode falar em nome do povo foram o atestado da perda de contato com as ruas. O projeto econômico entrou em colapso, e o edifício da prosperidade ora vistoso, alicerçado em programas sociais, crédito e dinheiro público, começou a ruir. Sem dinheiro fácil das exportações, o projeto petista não sobreviveu na economia, não encontrou eco nas ruas, nem conseguiu garantir a unidade política.    

A esquerda não sabe governar em crise
Em tempos de crise, a esquerda, especialmente o PT, não tem projeto econômico viável. Por um momento, achava-se que Lula havia sido um ótimo Presidente, trazendo crescimento econômico com maior igualdade social. Também achava-se que Dilma era uma ótima gestora.

Mas quando acabou o boom econômico das commodities, encabeçada pela demanda descomunal da China, vimos que tudo não passou de ilusão. O receituário fácil de aumentar o gasto público e estimular o crédito pode até funcionar parcialmente em momentos de esfriamento da atividade econômica, mas não em crises fiscais.

Não existe surpresa: todos sabiam que o PT prometera um programa ilusório nas eleições de 2014, e que 2015 viria com um tarifaço. Nem existe mágica: todos sabiam que era necessário um ajuste fiscal para sanear as contas públicas. Pois os maiores opositores aos planos de Joaquim Levy foram o próprio PT, Lula na chefia, e suas bases sociais. Afinal Dilma foi vencida pelo seu partido quando teve de se contentar com Nelson Barbosa na Fazenda.

O que ficou claro nessa derrocada do petismo é a incapacidade da esquerda para governar em tempos de crise, propor ajustes, reformular o Estado. Com o impeachment, o PT volta a oposição, seu lugar cativo em tempos de crise. Os 13 anos no poder não fizeram o partido aprender as responsabilidades do governo.

Reavivamento da esquerda pré-histórica
A narrativa do “golpe” deu novo fôlego à esquerda pré-histórica, ainda expressiva no Brasil, composta por fósseis que vivem antes da queda do Muro de Berlin. Mentes cujas ideias, aprendidas nas universidades há cinquenta ou quarenta anos atrás, não correspondem mais aos fatos. Dinossauros ameaçados de extinção que ainda viam conspirações da CIA por trás de Sérgio Moro.

Na retórica desse grupo, é preciso combater as forças malignas do imperialismo opressor. Nutrem uma obsessão quase neurótica pela opressão e pelo golpe, como se fossem o teste de fogo da alma revolucionária. Parece, assim, que eles desejam ser esmurrados pela polícia, virar presos políticos e ser os combatentes de um grande golpe para fundamentar existencialmente sua ideologia.

Eis que o impeachment deu uma sobrevida a esse grupo e será combustível para anos de pensamentos políticos anacrônicos. E pior, seduzirá muitos jovens para a verborragia dos protestos e a miopia das soluções possíveis. 

***

Vai-se a ilusão petista, ficam os cacos de um projeto de poder. A questão é se essa grande derrota da esquerda trará reflexões e amadurecimento ou acirrará ainda mais um debate político desgastado. Afinal, se é para ser um país democrático e dar abrigo a todas as tendências políticas, que o Brasil tenha ao menos uma esquerda moderna e humilde. 

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