terça-feira, 3 de maio de 2016

Fogo Olímpico

O fogo olímpico foi outrora símbolo de solidariedade e de confiança nas realizações humanas. Guerras eram suspensas para que todos pudessem assistir aos jogos. Hoje o fogo chegou com um quê de inconveniência. Brasília foi a primeira cidade brasileira a receber a tocha. Mas a cidade já está inflamada com outro assunto e a recebeu com ares de indiferença.

Talvez se fosse em outro momento, a passagem da tocha poderia ser um espetáculo aplaudido e reverenciado pelas ruas. Talvez o evento fosse melhor recebido na época em que celebrávamos nossos campeões nacionais e quando o esporte carregava nossa dignidade a nível internacional. Fosse em outra hora, ao olhar para a chama da tocha talvez nossa maior preocupação fosse com o mistério da cerimônia de abertura das Olimpíadas do Rio. 

Mas como aplaudir a marcha da tocha quando muitas vias serão bloqueadas, quando o trânsito poderá se tornar caótico, quando não se fala de outra coisa senão do processo de impeachment, e quando o Whatsapp foi novamente bloqueado? Nossa paciência para eventos esportivos parece ter se acabado com a Copa e os 7 a 1...

Em 2009, no entanto, o clima era outro. Uma trinca de peso foi acompanhar a escolha da sede olímpica. Lá estavam Lula, Sérgio Cabral e Eduardo Paes, todos no auge da popularidade e prestígio, um time imbatível como o dream team do basquete foi em 1992 para Barcelona. Desbancamos Obama e sua fria Chicago numa comemoração digna da explosão de Cielo quando conquistou o primeiro ouro brasileiro na natação.

Os três voltaram como arautos anunciando por toda a Hélade a realização dos jogos, proclamando a trégua sagrada em nome da concórdia nacional. Tudo caminhava bem.

Mas algo aconteceu nesse meio tempo. Ficamos como Wanderley Cordeiro de Lima, que corria triunfante para o ouro na maratona em Atenas quando foi surpreendido por um louco irlandês. Ou como a seleção de futebol em 1996 assistindo à dança provocativa do nigeriano Kanu após o gol de ouro. O que aconteceu?

Quem sabe a audácia e a ambição que fizeram Michael Phelps conquistar oito ouros em Pequim tenham levado os políticos brasileiros a perseguirem um ouro diferente, indevidamente. Quem sabe a euforia que fez Yelena Isinbayeva tentar bater recordes mesmo com o fim das provas tenha feito com que políticos vencedores se imaginassem como inalcançáveis em suas realizações, boas ou más. Quem sabe a completa segurança da vitória que fez Usain Bolt desacelerar a passada tenha dado aos políticos um desprezo pela opinião pública e pela ética.

É verdade que o fogo olímpico evoca o humanismo helênico e enaltece as capacidades humanas. Mas contra ele se insurge o vento gélido da inscrição de Delfos que sopra contra toda a arrogância: Conhece-te a ti mesmo.

A imagem de Lula agora é a do Pixuleco. Cabral amarga um ostracismo político desde que deixou o governo. E Eduardo Paes tenta a todo custo emplacar um sucessor. Nem mesmo sabemos qual será o presidente na abertura dos jogos em agosto.

Quem imaginaria esse quadro há dois anos atrás, ou mesmo no ano passado. Parecia que era só aguardar a glória da consagração mundial e fazer o Rio de Janeiro brilhar perante o mundo. Tínhamos o match point a nosso favor. 24 a 19. Nada poderia tirar nossa vitória. Mas parece que, como em 2004, era a Rússia que estava do outro lado e o jogo virou.


Ciclovias desabam, presidentes são removidos e até o Estado Islâmico se tornou uma ameaça. 2016 definitivamente não era ano para Olimpíadas, pelo menos não no Brasil. Ou será que o fogo olímpico reavivará o espírito esportivo, o ânimo para vencer desafios e a solidariedade com os adversários. A julgar pelo desânimo com que Brasília recebeu a tocha, não. 

Nenhum comentário: