sexta-feira, 24 de junho de 2016

Três consequências do BREXIT

1. Crise do Establishment político

Do Reino Unido à Espanha, dos Estados Unidos ao Brasil. É fato que o establishment político não encontra voz em um mundo onde as relações sociais não precisam mais da intermediação de instituições políticas.

A campanha pelo Remain uniu, de maneira inusitada, David Cameron aos Trabalhistas e ao Partido Nacionalista Escocês. A maioria dos grandes líderes políticos do Reino Unido advertia contra os riscos de saída da União Europeia, ao mesmo tempo que clamava pela continuidade do país no bloco.

O apelo desses líderes não surtiu efeito. O Partido Trabalhista, forte defensor do Remain, está sendo criticado por ter perdido a conexão com seus eleitores, ao mesmo tempo em que Cameron e a nata do Partido Conservador falharam em seus apelos. Parece haver uma rejeição mundial da população a seus políticos eleitos.

Nos EUA, o fenômeno da candidatura de Donald Trump pelo Partido Republicano ainda é uma surpresa. Praticamente sozinho dentro do partido, Trump foi galgando espaço com seu discurso populista, aliás, contra o establishment político de Washington e econômico de Wall Street.

No próximo domingo, os espanhóis voltarão às urnas para tentar dar fim ao impasse político que vem desde dezembro de 2015. Dois partidos novos, o Podemos e o Cidadão, são forças recentes que se voltam contra o domínio tradicional do PP e do PSOE e complicam a disputa.

No Brasil, o desprezo pela classe política é antigo, mas acentua-se conforme a Lava Jato vai mostrando a corrupção entranhada em todos os partidos. Os prognósticos para a candidatura de Bolsonaro em 2018 afirmam que não haverá fôlego ao capitão do Exército. Mas essa era a mesma previsão quanto a Trump e ao Brexit...

2. Golpe no projeto jurídico, filosófico e político de integração mundial

A integração europeia foi para o século XXI talvez o que o iluminismo foi para o século XVIII: uma grande esperança de um mundo melhor a partir de arranjos políticos e sociais.

No direito, a ideia do transconstitucionalismo é sedutora. Perspectivas internacionais dos direitos humanos, globalização jurídica, cortes internacionais, e uma ética habermasiana montaram o palco para uma geração de juristas sonhar com a construção da cidadania inclusiva ou de uma comunidade democrática internacional a partir da verborragia de conceitos jurídicos.

No ramo filosófico, foi o multiculturalismo a bandeira empunhada para pregar a fraternidade universal dos povos. Charles Taylor, um dos expoentes da tradição, advoga que o reconhecimento da identidade de grupos sociais autoriza a violação do dogma da igualdade. A “política da diferença” deveria ser a tônica de um mundo plural onde convivem pessoas com crenças e valores distintos dentro da mesma sociedade.

Por fim, a materialização política de todo esse pensamento veio com a União Europeia. Uma série de avanços gradativos que possibilitaria a unidade em meio à diversidade, onde o todo seria maior que a soma das partes. O grande paradigma das relações internacionais, o modelo de referência para o Mercosul. Parecia ser a tendência do novo século: o alargamento das fronteiras do Estado nacional na diluição de grupos multinacionais, num projeto maior, grandioso e moderno.

Tudo ruiu com o resultado da consulta aos britânicos. Ainda é cedo para falar da falência total desse projeto. Mas certamente ele nunca mais será o mesmo.

3. Ressurgimento dos nacionalismos

O pano de fundo da saída da União Europeia foi todo preenchido pela discussão nacionalista. O Leave ganhou por apresentar argumentos plausíveis e palatáveis ao grande público: o problema cada vez maior da imigração não seria resolvido a partir de Londres ou da vontade soberana do povo britânico; a possibilidade de entrada da Turquia no bloco poderia gerar um caos econômico e social; as milhões de libras enviadas anualmente pelo Reino Unido poderiam ser revertidas em projetos internos etc.

Como se alegava, permanecer na União Europeia era ficar nos “Estados Unidos da Alemanha”, submetidos ao poder de Merkel. Foi com apelo fortemente nacionalista que nesta sexta-feira se proclamou o “dia da independência” britânico. O movimento representa, agora de forma visível, simbólica e cabal, o ressurgimento dos nacionalismos após a onda da globalização.  

A força dessa saída, obviamente, encorajará outros movimentos separatistas. Já se estuda um novo plebiscito para que a Escócia deixe finalmente o Reino Unido e permaneça na União Europeia. A Catalunha ganha força para seu projeto. Além, é claro, da Frente Nacional francesa, chefiada por Marine Le Penn, que já prometeu o Frexit para o ano que vem.

A guerra da Síria, a crise migratória, o Estado Islâmico e o terrorismo são todos elementos que reforçam o argumento nacionalista, seja nos EUA de Trump, seja no Reino Unido de Cameron. É um fenômeno que veio para ficar, e por isso é preciso deixar de lado críticas pueris e acusações de “xenofobia” para melhor entender o que está acontecendo com o mundo e como lidar com essa nova realidade. 

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