terça-feira, 13 de setembro de 2016

Dilma e Cunha – a rivalidade que incendiou a política


A política brasileira assistiu ao desfecho de um dos embates mais lendários dos últimos tempos: a rivalidade entre Dilma Rousseff e Eduardo Cunha, que produziu o impeachment da presidente da república, o afastamento e cassação do presidente da Câmara e uma crise política monumental.

O final explosivo do confronto era previsível, embora não fosse crível que os dois o levassem às últimas consequências. Era janeiro de 2015, e o gabinete da liderança do PMDB na Câmara estava em alvoroço. Cunha estava em campanha para a presidência da Câmara, mas naquele dia ouviu a notícia de que o Planalto se empenharia na candidatura de Arlindo Chinaglia, do PT. Era uma clara declaração de guerra entre PT e PMDB, mas mais especificamente entre Dilma e Cunha.

A agitação das pessoas no gabinete da liderança lembrava a mobilização para a guerra, e a ordem do comandante foi dita por algum dos assessores: “Cunha disse que vai cair atirando”. Pois nessa guerra entre dois atores com vocação para kamikaze, morreram os dois, Dilma e Cunha.

As desavenças começaram lá atrás, quando Dilma e Cunha se estranhavam em razão de indicações do deputado para a diretoria de Furnas. Quando se tornou presidente em 2011, uma das primeiras ações de Dilma foi expurgar o PMDB de vários cargos de segundo escalão, dentre os quais as diretorias de Furnas. A partir daí, os dois já não escondiam de ninguém a antipatia recíproca.

Em 2013, o embate se tornou mais agressivo, e Dilma tentou barrar a eleição de Cunha para a liderança do PMDB, apoiando discretamente a candidatura de Sandro Mabel. Sem sucesso. Cunha foi eleito líder e usou todo o poder da liderança para verbalizar o descontentamento com o governo. Em 2014, encabeçou a ala peemedebista que defendia o fim da aliança com o PT, mas acabou derrotado na convenção do partido que consagrou, pela segunda vez, Temer como candidato a vice. Ainda no final de 2014, em retaliação, Cunha reuniu um grupo de partidos insatisfeitos com o Planalto para atuação independente do governo, chamado naquela época de “blocão” (o antecessor do “centrão” de hoje). 

Chegou 2015 e veio o contra-ataque de Dilma, com o apoio explícito e intenso à candidatura de Chinaglia. A vitória de Cunha em primeiro turno sacramentou a superioridade de articulação política do deputado em comparação com a presidente, O ano se desenrolou e com ele a representação no Conselho de Ética e os gritos de impeachment vindos das ruas amarraram Dilma e Cunha em um mesmo destino. Ou se salvavam ambos num acordo espúrio, num conchavo entre inimigos para preservar o sistema, ou os dois iriam para o confronto, cada um à sua própria sorte. Escolheram a última alternativa, e acabaram fulminados pelo Congresso.

O enredo da trama conferiu contornos hollywoodianos aos personagens, criando arquétipos quase perfeitos do herói e do vilão. Em uma versão da história, Dilma é a heroína lídima que empunha lanças contra um sistema político perverso dominado por Eduardo Cunha e seus aliados. Recusa indicações políticas para cargos técnicos e se nega a fazer barganhas com corruptos, e por esse caráter puro caiu em uma emboscada, sendo a vítima injustiçada no processo de impeachment, enquanto Cunha é o vilão maquiavélico que tramou tudo de seu gabinete.

Mas há uma história alternativa celebrada na Câmara. Nela, Cunha não aparece propriamente como herói, mas como anti-herói, o personagem que combate o mal sem pretensão de pureza, mas com todos seus defeitos, vícios e negócios ocultos – afinal, quem não os têm? O heroísmo de Cunha foi levantar-se contra a dominação do Executivo, recobrando o protagonismo ao parlamento. Elevou o brio dos deputados ao negar subserviência aos comandos do governo, fazendo o Legislativo criar agenda própria. E, principalmente, enfrentou a anomalia política chamada Dilma Rousseff, que tem ojeriza assumida de parlamentares, que se nega a sentar para conversar com aliados, que centraliza decisões e que ordena ao invés de negociar.

Versões à parte, ninguém em Brasília acredita em ficção. Na realidade crua da capital, cada personagem carrega consigo uma lista de boas obras tanto quanto uma coleção de maus feitos, não sobrando espaço para os papeis de herói ou vilão. Todos do mundo político sabem disso, mas preferem se escorar nas narrativas do bem contra o mal para justificarem votos e escolhas. A tática, aliás, tem dado certo, já que a cultura do messianismo persiste forte entre os brasileiros, que erigem para si santos e demônios no altar da política.

No entanto, ao retirar o aspecto de drama simplista que traça papeis bem definidos para os personagens, ainda sobra uma história digna de compor a antologia política brasileira: o embate entre dois inimigos que incendiou a política no Brasil.

Dilma e Cunha, ambos temperamentais, se vivessem o conflito entre EUA e URSS na guerra fria, e tivessem posição de poder, teriam explodido o mundo. Mas vivendo no Brasil do século XXI ajudaram a criar uma das maiores crises políticas, produzindo um impeachment e a cassação do presidente da Câmara. Talvez tenha sido melhor assim.

O que fica de tudo, no entanto, além do roteiro pronto para uma série Netflix, é a possibilidade de novas Dilmas e novos Cunhas. Cunha é a antítese de Dilma, e só ganhou visibilidade e poder graças à total falta de tino político da presidente. Ocorre que o presidencialismo no Brasil continua aberto para aventureiros como Dilma...

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