segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Crivella, MC Sofia e a maioria silenciada


A abertura das Olimpíadas Rio 2016 reuniu uma variedade de artistas para mostrar a riqueza cultural da cidade. Algumas unanimidades, como Jorge Ben Jor e Caetano, outras nem tanto, como Anita e MC Sofia.

Transitando entre a bossa nova da zona sul, o samba nos morros e na passarela, o hip hop e o funk nas periferias, a cerimônia buscou apresentar uma imagem eclética de um Rio de Janeiro inclusivo. E nesse espírito foi louvada a performance de Karol Konka e MC Sofia. Apesar do quase anonimato e da qualidade musical questionável, tratava-se de representantes legítimas do Rio: duas jovens, mulheres, negras e da periferia. Como esperar algo mais representativo dessa cidade berço do samba, construída na base da escravidão, e cujas favelas compõe a silhueta da paisagem?

Se o critério foi mesmo a representatividade da população, então faltou na abertura da Rio 2016 a música gospel entoada em alguma igrejinha pentecostal da periferia.

Saindo do campo artístico para o político, a eleição de Marcelo Crivella para a prefeitura escancarou esse abismo entre maioria da população e representatividade efetiva.

Aliás, não foi um ponto fora da curva na história da ex-capital do império. Basta voltar dois anos atrás e analisar a preferência dos eleitores fluminenses nas eleições de 2010 para o cargo de deputado federal:

Primeiro mais votado: Jair Bolsonaro, com 464 mil votos.
Segundo mais votado: Clarissa Garotinho, com 335 mil votos.
Terceiro mais votado: Eduardo Cunha, com 232 mil votos.

Todos os três são políticos conservadores, sendo que os dois últimos frequentam igrejas evangélicas. Agora, com a eleição de Crivella, quase 60% do município do Rio escolheu como prefeito um bispo da Igreja Universal.

Há nos círculos intelectuais e acadêmicos uma repulsa mais ou menos consensual sobre o que se enxerga como “onda conservadora”, ou seja, um fenômeno popular que executa ideias fascistas e coloca em risco direitos fundamentais. Sob o viés dessa lente, cabe reunir as forças progressistas e “de bem” para lutar contra o avanço desse exército inimigo, com o qual não há diálogo.

Cria-se uma polarização radicalizada. De um lado, o avanço consistente de partidos de direita, de ideias conservadoras e, em alguma medida, do discurso religioso. Do outro, uma repulsa irreconciliável com essas ideias e uma tentativa pueril de ignorá-las como um fenômeno real.

A dicotomia não se restringe ao Brasil. Na Europa, por exemplo, a questão migratória e a saída do Reino Unido da União Europeia mostram outra faceta da discussão. No caso, observa-se em um dos polos o crescimento do nacionalismo, dos partidos de direita e uma crítica às políticas migratórias; no outro polo, uma vertente humanitária, inclusiva, “do bem”, que faz uma crítica ferrenha, agressiva e com ares de superioridade ao outro lado.   

Aí mora o perigo. Grupos populares sem voz ou representação política são o ingrediente para a aparição de demagogos. Trump está aí para provar. Um dos slogans de sua campanha era: “The silent majority stays with Trump” – “A maioria silenciosa está com Trump”. A força política de minorias organizadas muitas vezes esmaga uma maioria que fica silenciada e suscetível ao discurso não raro irresponsável de políticos oportunistas. 

De todo modo, o fenômeno está posto. Apesar de se defender a representatividade simbólica de MC Sofia e Karol Konka, o fato é que Crivella foi eleito prefeito do Rio. Tratar a eleição do bispo com chilique e empáfia não ajuda no diálogo político.

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