quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Fidel e nossa guerrilha urbana

Fidel derrubou o governo de Fulgencio Batista e implantou um governo revolucionário, não necessariamente comunista. Foi o boicote americano e a aproximação forçada com a União Soviética que levou a ilha a adotar gradualmente o sistema comunista.

Cuba, isolada na América, passou a financiar a luta armada em todo o continente. A ideia de Fidel era fazer pipocar guerrilhas por toda a América latina, e para isso treinava, financiava e apoiava guerrilheiros.

No Brasil, com a ruptura de 1964, o modelo soviético adotado pelo PCB de Luiz Carlos Prestes caiu em desgraça perante toda a esquerda, diante de sua incapacidade de reação aos militares. O modelo cubano revolucionário, então, adquiriu proeminência na esquerda brasileira. Cuba chegou a financiar Brizola, refugiado no Uruguai, a organizar a guerrilha de reação.

Um senador arrependido notou uma pequena diferença: o Brasil não era igual a Cuba. Na ilha de Castro, bastava tomar Havana a partir da Sierra Maestra que o país estava conquistado; no Brasil, organizar uma guerrilha camponesa e tomar uma ou duas cidades de nada adiantaria para conquistar o continente brasileiro.

Diante dessa constatação, a guerrilha camponesa transmutou-se, no Brasil, em guerrilha urbana. Aliou-se a organização do PCB com a radicalidade da luta armada. Carlos Marighela, líder do PCB paulista, iniciou o movimento, criando uma dissidência que levou milhares de jovens entusiasmados para a luta armada no âmbito da Ação Libertadora Nacional – ALN. Outros grupos surgiram, como o Colina, o VAR-Palmares e o MR-8.

Fidel morreu após 57 anos no comando de Cuba, anacrônico e ultrapassado, mas, por incrível que pareça, ainda é bastante atual no Brasil. E não é apenas pelo ideal heroico e pelo simbolismo rebelde de suas fotos ao lado de Che Guevara (“hasta la victoria siempre”). Há um respeito pela tática política castrista.

Na ótica hegemônica do materialismo histórico, atacar as instituições burguesas vira sinônimo de coragem e aspiração por um mundo melhor – vamos aplaudir nossos jovens que bravamente ocupam as escolas. A guerrilha urbana da década de 1970, que assaltava bancos, promovia assaltos e roubava armas, agora sobrevive numa espécie de arruaça ideologizada, de vandalismo político, mas ainda com o ideal guerrilheiro e revolucionário que remonta até Fidel Castro.

Brasília virou cenário de guerra no dia 29 de novembro. Carros foram virados e queimados, barricadas foram armadas, monumentos foram pichados e nove ministérios foram invadidos. O pretexto: a PEC do Teto dos Gastos votada no Senado. A PEC foi aprovada em primeiro turno, e será aprovada em segundo até o fim do ano.

Amanhã virá outro pretexto para protestos violentos, e mais outro no dia seguinte, mas a tática continuará a mesma: desafiar instituições burguesas: a escola, a polícia, o governo. Invasões de escolas, esfaqueamentos de policiais, depredação de patrimônio público – manifestações que estão se tornando corriqueiras, e são aplaudidas por parcela considerável da população.


Radicalismo chama radicalismo. A guerrilha urbana atraiu repressão, AI-5 e tortura. O vandalismo político de hoje ainda prospera em meio à inércia do poder público. Desde junho de 2013, criou-se no Brasil essa cultura de que manifestações populares são inatacáveis. Fecha-se o Eixo, invade-se a Alerj e depreda-se a Paulista, por qualquer motivo. Mas o dia dos confrontos violentos poderá chegar em breve. 

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