segunda-feira, 17 de abril de 2017

Eleições na França


A Europa aguarda com ansiedade as eleições presidenciais francesas, que serão realizadas no próximo dia 23 de abril. Após a vitória do Brexit no Reino Unido em junho do ano passado, os europeus querem saber qual será a força e extensão da onda nacionalista, que pode minar com os fundamentos da União Europeia.

No mês passado, as eleições na Holanda deram vitória ao establishment político pró-União Europeia. Na França a campanha ainda está bastante embolada.

As eleições para presidente e deputados ocorrem a cada cinco anos, e o voto é facultativo. Primeiro, realiza-se a eleição presidencial, em sistema de dois turnos. Definido o presidente, realizam-se em seguida as eleições para a Assembleia Nacional (Câmara dos Deputados), e depois para o Senado.

O fracasso do governo de François Hollande foi evidente. O desempenho fraco da economia, o desgaste com a reforma trabalhista e os atentados terroristas minaram a popularidade do presidente, tanto que ele desistiu de disputar a reeleição. Esse vácuo de poder embaralhou a corrida presidencial em 2017 e deu margem para diversos candidatos tentarem a sorte.

A menos de uma semana da eleição, quatro candidatos aparecem em empate técnico, sendo realmente imprevisível quem serão os dois a participar do segundo turno.  

  • A Frente Nacional, partido de direita contrário à UE, vinha com força desde o ano passado, especialmente devido à crise migratória e à onda de atentados terroristas. Marine Le Pen, a candidata do partido, alterna entre o primeiro e o segundo lugar nas pesquisas, e pode se beneficiar do eleitor oculto, aquele constrangido em apoiá-la explicitamente mas que votará na candidata no dia do pleito (como ocorreu com Trump)
  • O quadro de vantagem da Frente Nacional mudou quando o partido Republicanos, de centro-direita, escolheu François Fillon como seu candidato em novembro de 2016. De tom moderado e apresentando-se como um político experiente e respeitável, Fillon assumiu a dianteira e sua eleição era dada como bastante provável até o início do ano. Tudo ia bem até a divulgação de que Fillon teria empregado mulher e filhos como funcionários fantasmas de seu gabinete parlamentar. Diante do comprometimento ético, Fillon despencou nas pesquisas e passou a toda campanha na defensiva.
  • Aproveitando-se do debacle na esquerda, criou-se um movimento político paralelo ao tradicional Partido Socialista, o En Marche. O candidato desse novo movimento, de orientação liberal e que se define como “nem de direita e nem de esquerda”, é Emmanuel Macron. O jovem candidato foi ex-Ministro da Economia de Hollande, e é pró-União Europeia. Tem mantido a dianteira durante toda a campanha e é provável que vá para o segundo turno.
  •  Também preenchendo o vácuo de poder deixado pelo Partido Socialista, tem crescido bastante o candidato do França Insubmissa. O veterano de extrema-esquerda Jean-Luc Mélenchon também tem discurso contrário à União Europeia e cresceu nas pesquisas devido ao discurso contrário ao sistema, algo como Bernie Sanders.


O segundo turno das eleições presidenciais, bastante provável, acontecerá em 7 de maio. Será uma campanha curta, de duas semanas, e a tendência é o reagrupamento das forças de centro, tirando fôlego dos candidatos mais radicais (Le Pen e Mélenchon).

Um mês depois, em 11 de junho, serão realizadas as eleições legislativas. A Assembleia Nacional francesa é formada por 577 deputados, eleitos pelo sistema distrital de dois turnos. O território da França é dividido em 577 distritos eleitorais, e cada distrito elege apenas um deputado.

O sistema é semelhante ao da Inglaterra e ao dos Estados Unidos. A diferença francesa é a exigência da maioria qualificada do eleitorado para a eleição do deputado. Se nenhum candidato alcançar mais de 50% dos votos do distrito, realiza-se segundo turno, uma semana depois (em 18 de junho). No segundo escrutínio, podem participar os candidatos que tenham alcançado ao menos 12,5% dos votos do eleitorado, o que corresponde mais ou menos a 20% dos votos válidos. A exigência foi pensada para dar maior legitimidade ao deputado eleito pelo distrito.

Uma vez que as eleições presidenciais ocorrem antes das legislativas, a tendência é que o partido do presidente eleito tenha mais força para disputar as cadeiras no parlamento, alcançando, em geral, a maioria dos assentos na Assembleia Nacional.

Como membro fundador da União Europeia, a França é peça-chave para a solidez do bloco. Por isso os olhos se voltam para os franceses no próximo domingo. Seja como for, o lado bom de tudo é não ter mais que ouvir a Cecília Malan pronunciando “François Hollande”. 

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