sexta-feira, 20 de outubro de 2017

A Europa e a guerra pela Catalunha

Em livro que se tornou um dos clássicos da ciência política, Charles Tilly se indaga por que a política europeia, formada por uma miríade de organizações estatais, convergiu para os grandes estados nacionais a partir do século XIX.

No início da era moderna, o mapa da Europa era confuso, formado por várias soberanias sobrepostas entre cidades-estados, bispados, ducados, principados, pequenas repúblicas, ligas religiosas e militares e alguns insipientes estados nacionais.

A resposta de Tilly é que as guerras funcionaram como catalisadoras da formação de estados amplos e melhor organizados, baseados no apelo à nação, que conseguiam concentrar renda e manter uma estrutura de guerra permanente entre seus cidadãos. As organizações que permaneciam como pequenas soberanias locais eram logo eclipsadas pela máquina de guerra dos estados nacionais.

Após Maastricht, Viena e Versalhes – e uma série de mudanças de fronteiras –, temos o mapa europeu como o conhecemos hoje, com relativamente poucos estados-nações. Após o debacle do comunismo no fim da década de 1980, observou-se um movimento de aglutinação desses estados nacionais em um órgão supranacional poderosíssimo, a União Europeia.

Eis que veio o Brexit, em junho de 2016, colocando um freio nessa marcha de integração e levantando dúvidas sobre o futuro do continente. A bola da vez é a Catalunha.

Especula-se sobre o efeito em um e outro lado. Uma Espanha sem sua região mais rica, tendo de endurecer o discurso com o separatismo basco. Uma Catalunha desenvolvida, mas sem respaldo internacional, já que a vizinha França já se adiantou declarando que não reconhecerá o novo estado.

A questão é delicada. Independências só são conquistadas mediante o conflito, muitas vezes sangrento. Está no âmago da teoria estatal a questão da soberania – não reconhecer nenhum outro poder superior ao seu em um determinado território. Se o estado passa a reconhecer o direito à independência de qualquer localidade que alega ter esse direito, por declaração unilateral, não haverá nenhum estado que sobreviva.

O fato é que a questão catalã não diz respeito só à Espanha, mas a toda a Europa.

O continente sempre foi um caldeirão de diversos povos, cada qual com história e cultura próprias, amalgamadas por muito tempo pelo laço comum da cristandade. Quando esse laço foi rompido a partir da Reforma e posteriormente da secularização, foi o nacionalismo o fenômeno político e social que permitiu a colagem de diferentes localidades em uma mesma moldura do estado-nação.

Segundo a abordagem de Tilly, as inúmeras guerras dentro do continente fizeram do estado-nação o modelo mais eficiente e duradouro de organização política, ainda que abrigando regiões tão divergentes como a Bavária católica e uma Saxônia protestante, para citar apenas o exemplo alemão.

Em um mundo de globalização avançada, a nação é uma entidade por demais ampla para a construção de identidades. Além disso, as grandes migrações de muçulmanos reforçam a necessidade de refugiar-se socialmente em uma cultura comum. Recorre-se, assim, tanto a discursos nacionalistas quanto a movimentos separatistas, esses proclamados por localidades menores, as quais demandam sua soberania por direito de autodeterminação.

A questão catalã, portanto, será um marco de como a Europa reagirá aos localismos radicais. País Basco, Galícia, Flandres, Escócia, Bretanha, Bavária, Lombardia, Normandia, Silésia. Todos aguardam para ver como se dará a resolução do conflito.


Que forma de organização política emergirá disso tudo? Um gigante órgão supranacional como a União Europeia abrigando diversas soberanias menores? Pequenos conflitos pipocando em todo o continente? Uma “balcanização” sucessiva de toda a Europa? É aguardar para ver. 

Nenhum comentário: