segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Ciclistas


Por ser meio de transporte ecologicamente correto, além de envolver atividade física, a bicicleta virou a queridinha da ala “inteligente” da sociedade. Solução para o aquecimento global, para o sedentarismo, para a mobilidade urbana? Construir ciclovias.

“Vejam Amsterdam”, “Os ministros da Suécia vão pedalando para o trabalho”. Mirando o exemplo exterior, o brasiliense vai parodiando soluções estrangeiras apenas por contar com o selo do politicamente correto que foi estampado nas bicicletas.

O ex-governador Agnelo investiu milhões na construção de ciclovias fantasmas na capital, rejeitadas pelos próprios ciclistas pela má qualidade. Recentemente, o DFTV embarcou na onda apresentando um quadro como se a bicicleta realmente fosse solução para a mobilidade em Brasília.

O detalhe esquecido é que Brasília foi construída em uma escala completamente diferente de qualquer outra cidade do mundo. Vejam as fotos abaixo.

Para atravessar a cidade de Paris de alto a baixo, o ciclista percorre 9,5 km. Em Londres, para ir de Camden Town, no extremo norte da Inner London, até o Winbledom Park (já na região 3 do metrô), o cidadão percorre 15,2 km.

E Amsterdam, o grande paradigma de todos os ciclistas? Para cruzar a cidade inteira, do aeroporto até o bairro de Amsterdam Nord, basta pedalar 15,9 km.

No Rio, as proporções são mais ou menos as mesmas. Para ir da zona sul, no Leblon, até o centro, na Candelária, o ciclista percorre 16,1 km.


Brasília, porém... De uma Asa até outra temos nada menos do que 13 km. É muita coisa. É quase o diâmetro das maiores capitais europeias. (Apenas para situar, 13 km é a distância do sul da ilha de Manhatan, em Nova York, até a periferia do Harlem, ou seja, o ciclista passa por Wall Street, East Village, Empire State, a sede da ONU, o MoMa, Times Square e todo o Central Park, o que equivale à distância de uma Asa a outra!).

Se incluímos as cidades-satélites, então, a distância fica impraticável. Por exemplo, se o sujeito mora em Águas Claras e quer ir de bike ao trabalho, digamos na Esplanada, a distância é de 24 km! Uma hora e nove minutos segundo o Google.

A bicicleta pode ser um item de lazer, transporte para percorrer pequenas distâncias dentro do bairro ou até um instrumento de integração entre ônibus e metrô. Mas em Brasília a bicicleta simplesmente não pode, nunca, ser pensada como solução para o transporte de massas.

Soluções para transporte e mobilidade têm de se adequar à realidade brasiliense. Só porque a prefeitura da tal ou qual cidade investe milhões em ciclovias e quer adotar a bicicleta como meio de transporte preferencial, isso não significa que a solução tenha de ser adotada em Brasília.


Mas soluções prontas, que não respondem a problemas específicos, parecem ser a regra quando o assunto é bicicleta. Recentemente, a ONG Rodas da Paz encabeça movimento para redução da velocidade máxima na L2 de 60 para 50 km/h, alegando, segundo uma das faixas fincada no canteiro central, que “A 50 km/h ninguém morreria”. A campanha veio como reação à morte de um ciclista no mês passado, na L2 Norte. Detalhe: o motorista que atropelou o ciclista estava dirigindo a 95 km/h. Fosse a velocidade máxima da via 60, 50, 40 ou 20 km/h, não mudaria em nada o destino trágico do ciclista... 

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